segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Ngc 6281 - Nebulosidade Imobiliária

        


              Ngc 6281 é um daqueles aglomerados abertos que possui alguns vizinhos muito famosos. Fosse a Via Láctea a cidade do Rio de Janeiro seu  endereço começaria com  Delfim Moreira ou Vieira Souto. E assim passaria quase desapercebido entre "Juans les Pins" e " Cap´s Ferrats" (os prédios "mais mais" da orla)  . Mas bons corretores estão sempre de olho naquele belo apartamento de frente para o mar em um prédio um pouco mais antigo e menos badalado...
                Estando a menos de 5o de Ngc 6321 , 2o a sudoeste de 6302 ( Bug Nebula) , 10o sudoeste de M7 e M6 e com  Ngc 6128 a nordeste e outras mansões bem próximas não é de se estranhar que nosso convidado fique um pouco apagado. Em qualquer outra vizinhança ele seria  "prefeitinho"...
                Ngc 6281 foi descoberto por Dunlop em 5 de junho de 1826.
                " Uma curiosa linha curva de pequenas e brilhantes estrelas com diversas estrelas mais tênues misturadas".
                É  a entrada de numero 566 de seu catalogo elaborado em Parammata ,  Nova Galês do Sul,  Austrália.
                A cauda de Escorpião se destaca contra o centro de nossa galaxia e é salteada por inúmeros aglomerados abertos. Ngc 6281 , mesmo menos popular, se destaca como um alvo para pequenos telescópios e um desafio para observadores a olho nu.
                Localizado a 1800 anos luz  ele é um contemporâneo de M7 ( 220 milhões de anos), porém a quase o dobro da distancia deste. Na verdade ele se encontra mais perto de M6 que esta apenas 200 anos luz mais próximo. Isto implica que ele é quatro vezes menor que o Aglomerado de Ptolomeu e tem apenas a metade do tamanho da Borboleta de M6. Ele se espalha por algo em torno de 4,2 anos luz  de universo.   Bem pequeno...
                Uma estrela de 6a magnitude destaca-se no seu flanco noroeste. É HD 153919. Durante muito tempo foi considerada um membro do aglomerado. Porém estudos mais recentes indicam que esta é muito jovem para fazer parte do grupo e é muito provavelmente uma fugitiva de Ngc 6231. Este um aglomerado muito jovem. Entre 3 e 6 milhões de anos.

                           

                Localizar Ngc 6281 é bem fácil. Partindo de Mu Scorpii (uma dupla) utilizando a buscadora  e escaneando rumo a leste HD 153919 será evidente e o aglomerado se apresentará flanqueando esta mesmo em locais de forte poluição luminosa.  Em locais bem escuros a estrela vai ser percebida e com um olhar atento a presença do aglomerado também. Para quem espera o ver a olho nu é justamente separar este do brilho da estrela o grande desafio.

                O tamanho real do aglomerado é discutível . Alguns autores consideram apenas a parte mais central e concentrada como membros verdadeiros. Mas há diversos papers que incluem outras estrelas . E assim seu diâmetro aparente varia de 5´ até 18´ .
                O Stellarium o apresenta como um aglomerado com nebulosidade. É controverso. Embora a região próxima apresente alguma nebulosidade o aglomerado em si já é antigo o suficiente para ter consumido a nebulosa original e inclusive já perdeu algumas de suas estrelas.  Em fotografias de campo grande se percebe alguma nebulosidade . Utilizando o Maxim e bastante pós processamento consegui destacar alguma nebulosidade envolvida e nos arredores. Semelhante a outras fotos que pesquisei.   A região central da galaxia é repleta de gás e poeira e não necessariamente a nebulosidade presente tem algo com a anciã nebulosa que gerou o aglomerado. Não achei dados a respeito da distância desta.  
                 A foto que abre o post foi resultado do processamento de 15 fotos com 20 segundos de exposição empilhadas ( 3200 ASA) no DSS e com um drizzle de 2X. Sem maiores tratamentos além de alguns dark frames para calibragem . A foto abaixo é resultado das mesmas fotos empilhadas e tratadas no Maxim DL e no Photo Shop. 

                            

Nestas consegui destacar alguma nebulosidade. A astro fotografia ,as vezes, implica em um certo distanciamento do que você vai observar junto a ocular. Nenhuma das descrições "clássicas" de 6281 ( ,Dunlop , Herschel , Skiff e mesmo "Eagle Eye" O´Meara ) falam em nebulosidade.... 
                O Aglomerado apresenta estrelas duplas interessantes e algum colorido com estrelas já avançando para fora da sequência principal.

                Um belo recanto em meio a uma das mais nobres e concorridas vizinhanças da galaxia. Com ou sem nebulosidade

terça-feira, 18 de agosto de 2015

M 22 - O Aglomerado de Tolkien

               

                   M 22 é uma das maiores jóias da Coroa Austral . Ele forma , juntamente com Omega Centauro e Tucana 47, a trindade dos globulares. São os três maiores Aglomerados deste tipo ( tamanho aparente) visíveis  da terceira rocha a partir do sol ( também conhecida como Planeta Terra..) .  
                Como não poderia deixar de ser ele é conhecido como " O grande Aglomerado de Sagitário". Trata-se de uma imensa fogueira de aproximadamente 500 .000 sóis  e se espalha por 33´de firmamento . O mesmo diâmetro aparente da lua cheia. Na trindade ele é o menor dos membros. Segundo alguns esotéricos ele representaria a Mãe já que para as antigas religiões célticas a trindade consistia do Pai, do Filho e da Mãe. Me parece mais sensato que invocar algum espírito e remonta as lendas de Avalon e suas brumas. Talvez por isto Tolkien ( que era um estudioso destes assuntos...) o tenha descrito no" Hobbit". Pelo menos segundo nos diz O´Meara M22  teria inspirado o autor na descrição de uma jóia  batizada   de Arkenstone of Thrain -"... Era como se um globo tivesse sido prenchido pela luz da lua e pendurado defronte a eles em um tecido líquido feito com o brilho de estrelas geladas..."- algo de incomparável beleza.   De fato isto esta escrito no capitulo 16 do Hobbit. Agora se Tolkien realmente se inspirou em M 22 é já algo no terreno das lendas. Para quem já viu M 22 a descrição é bastante precisa.
                M 22 é um DSO sensacional em qualquer equipamento que você o observe. A primeira vez que eu o vi foi pelo meu antigo "Trucuçu" ( um binoculo 20X80 mm com lentes mecúrio cromo coated) e mesmo assim ele era um espetáculo. Estava e uma viagem de trabalho pelo litoral sul do Rio e chegando embriagado no hotel fiz uma rápida inspeção do horizonte leste onde me deparei com ele. Mesmo sem nenhuma pesquisa sabia de quem  tratava-se. Localizado perto de Kaus Borealis (Lambda Sag)  é uma navegação bem fácil e o mesmo é  percebido até mesmo a olho nu em locais um pouco mais escuros que o Rio de Janeiro.  Em noites sem lua e em locais escuros poucas visões se comparam ao luz de algumas centenas de milhares de estrelas a meros 10.100 anos luz de nós. M 22 é um dos mais próximos globulares.
                É mais um  daqueles  DSO´s que demonstram a precariedade dos telescópios utilizados por Messier (mesmo levando em conta que M 22 nunca se apresenta muito alto no horizonte de Paris) . Ele nos conta que o observou na noite de 5 de Junho de 1764 e que " se trata de um nébula , abaixo da eclíptica , entre a cabeça e o arco de Sagitário. Próximo a estrela de 7a magnitude flamsteed  25 Sagitarii. Esta nebulosa é circular e não apresenta nenhuma estrela.  Claramente visível com um telescópio simples de 3 pés e meio. Abraham Ihle , o alemão, a localizou em 1665 quando observava Saturno. M. le Gentil a observou em 1774".  
             Messier não inclui a observação feita por Lacaille que inclui M22 em seu catalogo elaborado entre 1751-52 e sucintamente ( sempre...) o descreveu assim : " lembra o anterior" . A entrada anterior (Lac I .11) de seu catalogo  fala o seguinte " Parece um Cometa". O problema é que a entrada anterior é discutida até hoje. Eu acredito tratar-se de M69. Mas muitos acham improvável. E M69 não se parece com M 22. Especialmente em minúsculas lunetas como as que Lacaille usava. 
            Halley também o inclui em sua lista de 6 objetos nebulosos publicada em 1715. Ha indícios que Hevelius o viu antes de Ihle.
                O Observando com meu binóculo 15X70 mm ele chega quase ao limite da resolução. Embora não chegue a ver estrelas individuais percebo nitidamente alguma "granulosidade" nas sua bordas e seu núcleo brilha intensamente. Já  o Newton ( telescópio 150 mm) a 48X resolvem-se muitas estrelas até quase o centro.   Com 120X mais ainda. M22 é um aglomerado do tipo VII na escala de concentração Shapley. Medianamente concentrado. 


                O´Meara o chama de "Aglomerado Crackerjack". O nome é uma daquelas piadas que só faz sentido para americanos. Crackerjack é uma marca de pipoca doce que vem com um pequeno brinde em sua embalagem.  Como ele , assim como Skiff,  percebem um pequeno ajuntamento de estrelas no quadrante noroeste de M22 , um aglomerado dentro do aglomerado,  surge o apelido...
                Falei no ultimo post de como é raro encontrar nebulosas planetárias em aglomerados globulares . M 22 possui esta honraria. Descoberta pelo satélite IRAS e catalogada como GJJC 1 esta minúscula nebulosa (10´´X 7´´)habita próxima ao centro de nossa gema. Não achei nenhuma observação visual desta nos meus alfarrábios nem na web... O Hubble Space telescope identificou um considerável numero de objetos de tamanho planetário passeando pelo aglomerado utilizando a técnica de micro lensing ( "dobrando" a luz de estrelas de fundo do aglomerado) .


                M 22 se espalha por 200 anos luz de espaço e sendo muito próximo da eclíptica alinhamentos com planetas são comuns.

P.S. A foto que abre este post é resultado de 15 Exposições de 20 segundos + 7 dark frames realizadas com uma Canon T3 montada em foco direto no Newton ( refletor 150mm f8). 2X drizzle no DSS . 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

M 11 e M 55 - O Diabo esta nos Detalhes


           

            As aparências enganam. Nem tudo é o que parece ser . Quem vê cara não vê coração. São varias as expressões mas todas elas tem um mesmo significado implícito. Os olhos nos enganam.
            Neste post eu achei interessante reunir 2 aglomerados que são extremamente diferentes em quase todos os parâmetros concebíveis mas que apresentam uma aparência  "semelhante".
            Entre as estruturas galácticas mais marcantes estão os chamados aglomerados abertos ou galácticos e os Aglomerados globulares. Em geral sua forma não deixa duvidas a respeito de quem é uma coisa e de quem é outra .
            Mas nossos dois convidados hoje , se levarmos em conta apenas a aparência junto a telescópios amadores, podem levar a uma certa confusão.


            M11 é um aglomerado aberto. E M 55 é um globular. É importante diferenciar aparência de morfologia.  
            Só que enquanto M11 é um aglomerado aberto super denso M 55 é um globular bastante disperso.
            O grau de concentração de aglomerados globulares é medido utilizando-se a escala Shapley -Hoog.  A escala leva este nome por ter sido criada por Harlow Shapley e por Helen Sawyer Hoog nos anos 20 do século passado.  Nesta os globulares são classificados de I a XII ( 1 a 12 em numerais romanos) . I significa que o aglomerado é extremamente denso. XII que este é bem pouco concentrado.    
            Harlow Shapley foi um astrônomo americano  lembrado pela maioria de nós  por ter sido uma das figuras centrais no famoso "Grande Debate" ou " O Debate Shapley- Curtis".
            Em 1920 o debate entre estes dois grandes astrônomos jogou luz sobre a cosmologia do Seculo XIX- um tempo em que os astrônomos tinham uma concepção sobre a estrutura e a forma do universo bastante diferente da que possuímos hoje. Shapley e Curtis passaram sua carreira estudando a Via Lactea. Hoje em dia é facil vermos que ambos tiveram seus erros e acertos . A meu ver os erros de Shapley  com relação a estrutura do universo foram maiores que os de Curtis . Mas não se pode negar que a herança de Shapley , sobretudo quando falamos da Via Láctea, foi maior que a de Curtis.
            Shapley acreditava que tudo no universo estava localizado em nossa galaxia. Ele acreditva que a galaxia era muito grande - 300.000 anos luz em diâmetro- e que o sol não estava em uma posição central.  Shapley também defendia que as Nébulas espirais ( Nebulosas em forma de espiral percebidas em telescópios) eram nuvens de gás "próximas" localizadas dentro da Via Láctea. Shapley baseou suais idéias sobre o tamanho da galaxia em suas observações de aglomerados globulares ( seus trabalhos sobre o assunto são ainda importantes). Ele determinou a distancia  do proeminente globular M 13 ( O Grande Globular de Hércules) e assumiu que todos os globulares teriam   aproximadamente o mesmo tamanho. Desta forma utilizou seu tamanho aparente para determinar suas distancias ( quanto mais distantes menores estes seriam...) . Ele descobriu que os aglomerados globulares formam um halo ao redor do disco chato que formam o resto da galaxia. E assim "determinou" que a galáxia possuiria 300.000 anos luz em diâmetro e de que o sol se encontrava a 50.000 anos luz do centro desta.
            Isto concorda , a grosso modo , com o atual entendimento da morfologia de nossa galaxia. A via láctea tem um diâmetro de 100.000 anos luz e o sol se encontra a 25.000 anos luz do centro  do disco. 
            Seu grande erro foi não acreditar que as nebulosas espirais estivessem além dos limites da galaxia. Uma teoria popular , na época, dizia que estes eram sistemas solares tardios em processo de formação.
            Já Curtis acreditava que a galaxia era bem menor que o proposto ( 30.000 anos luz) e que o sol se encontrava próximo a seu centro. Mas acertou quando concluiu que as nebulosas espirais estavam muito além da Via Lacte e que eram universos ilhas. ele concordava com Shapley que os globulares não habitavam o disco galáctico mas estavam muito mais próximos do que o previsto por Shapley.
            De qualquer forma a escala Shapley Hoog de concentração de Globulares é ainda utilizada e M 55 é um Globular do tipo XI. O menos concentrado de todos os Globulares no Catalogo Messier.
            Já os aglomerados abertos são classificados pela escala  Trumpler. . Esta criada por Robert Julius Trumpler . Trumpler . assim como Shapley, tentou determinar o tamanho da galaxia. Só que para tal utilizou aglomerados abertos. chegou a um tamanho de aproximadamente 36.000 anos luz e achava que o sol se encontrava perto do centro desta. posteriormente reviu sua posição. Sua classificação se baseia em três parâmetros :
 Grau de Concentração 
I- Aglomerados destacados com forte concentração central
II- aglomerados destacados com pequena concentração central
III-Aglomerados destacados sem considerável concentração
IV-  Aglomerados pouco destacados mas com forte concentração no campo ( de observação)

 Brilho das estrelas membro
1- A maioria das estrelas com o mesmo brilho aparente.
2-Uma distribuição mediana do brilho das estrelas.
3-Aglomerado de composto de estrelas brilhante e tênues.

Numero de estrelas
p- Aglomerados pobres com menos de 50 estrelas
m-Aglomerados médios possuindo de 50-100 estrelas
r-aglomerados ricos com mais de 100 estrelas.
                M11 é um aglomerado aberto classificado como  I 2 r. Alguns autores antigos o classificavam como II 2 r.
            A foto abaixo mostra como estes dois habitantes da Via láctea podem ser parecidos morfologicamente. Mas é apenas um truque óptico.
            Sua semelhança se deve apenas ao grau de concentração destes , sua distancia de nós e das limitações  do Newton ( meu refletor de 150 mm f8) . Ambos foram submetidos a 15 exposições de 15 segundos com ASA 3200.. As fotos foram feitas na mesma noite e com ambos altos no céu.
            Mas a semelhanças acabam aí.
            Um de meus livros favoritos na faculdade foi o "Geomorfologia" do Christofoletti. Neste são descritos as formas e processos que determinam a morfologia do relevo terrestre.  Eu sempre achei que o parente mais próximo deste , na astronomia , é o clássico "Astronomy: The Structure of the Universe" do Kaufmann. Neste ela vai nos explicar as formas (DSO´s) e processos envolvidos a morfologia destes DSO´s e como estes vão se apresentar ( e de certa forma) e determinar a morfologia do Universo em si.  Um dos conceitos fundamentais para a ciência é o de escala. Em uma simplificação ( mas sendo um exemplo bem didático) poderíamos dizer que a geografia esta para a astronomia assim como Aglomerados abertos estão para globulares. As distancias, tamanhos , massa , energias e o tempo são os alguns dos parâmetros que vão variar nos processos. Mas existe uma idéia de continuidade...   
            Aglomerados abertos habitam os disco galáctico e são "jovens". Globulares habitam o Halo  e são "antigos".  
            A analise dos diagramas HR de nossos convidados deixa isto bem claro. O digrama de um globular e a analise de modelos teóricos de evolução estelar vai mostrar que M 55 (assim como quase todos os globulares...) possui ,tipicamente, uma sequência principal curta e um "ramo"horizontal proeminente que demonstram uma grande presença de estrelas antigas que já ultrapassaram as fases de gigantes e super gigantes.  A analise destes diagramas em Globulares mostra que , curiosamente, que quase todos os globulares tem idades semelhantes ( e muitos bilhões de anos) e que se formaram durante um curto período de tempo ao longo da história do universo. Em um tempo que as galaxias eram ainda muito jovens. Estimativas recentes nos levam a idades entre 12 e 20 bilhões de anos . Valores aceitos de forma mais unanime ficam entre 12 e 16 bilhões de anos . Estes valores são fundamentais para se determinar os limites mínimos para a idade do próprio universo.  Os valores para a idade de globulares são alvo de intenso debate na cosmologia e sofrem alterações constantes devido as mudanças nas distancias na  escala do universo. O satélite Hiparcos mudou em muito as distancias aceitas destes e consequentemente de seu brilho. Bem como a idade destes. valores até 15% menores passaram a ser aceitos. O universo remoçou...







            Já aglomerados abertos são também  de fundamental importância para o a compreensão da teorias de evolução estelar.  A espectro grafia de globulares nos revela as caracteristicas de estrelas da população II e pobres em metais . Já as de aglomerados abertos nos explica a evolução de estrelas de populações mais recentes e muito mais ricas em metais.  Os digramas HR de aglomerados abertos apresentam, em geral, um grande numero de estrelas na sequência principal. Conforme envelhecem começam a surgir estrela no canto direito superior mostrando estrelas que terminaram de queimar seu hidrogênio e evoluíram para o estagio de gigantes vermelhas.  Estas são como uma marca registrada de aglomerados abertos de idade intermediaria e mais velhos. 



            Já globulares tem com uma característica marcante estrelas variáveis  do tipo RR Lyrae. Mais raro é perceber Nebulosas planetárias em globulares, provavelmente devido a pouca duração deste estagio evolutivo. Aliás observar nebulosas planetárias em Globulares é um esporte para a elite dos observadores... 
            Tanto globulares como aglomerados abertos sofrem influencia gravitacional de outros corpos na galaxia. Isto acaba por desagregar suas estrelas. Mas enquanto aglomerados abertos em geral duram alguns  milhões de anos globulares funcionam em outra escala de tempo. Bilhões...

            Agora que já falamos da semelhanças e diferenças vamos tratar M55 e M 11 ( Ngc 6705) de uma forma mais particular.
            Como antiguidade é posto ... M 55.

            M55 é uma descoberta do nosso patrono aqui no Nuncius Australis , o Abbe Lacaille,  realizada em 1752.  É a 14a  entrada da categoria I ( Nebulosas sem estrelas) de seu catalogo. Sempre sucinto ele nos diz: " Parece um obscuro núcleo de um grande cometa.".  Já Messier é um pouco mais falante: " Nébula que se parece com um remendo esbranquiçado , com aproximadamente 6´. Sua luz é homegeneamente distribuída e não foi percebida nenhuma estrela".
            É curioso Messier não ter resolvido nenhuma estrela em M55 e demonstra como era pobre a ótica de seu equipamento. M 55 é um dos poucos globulares que devido a sua pouca concentraçao se apresenta como um globular "modelo" para pequenos telescópios.  O desafio deste para telescópios modestos e em áreas de forte poluição luminosa é percebe lo de todo. Com sua baixa concentraçao estelar o brilho de superfície deste é bem baixo. Localizado a "apenas 17.000 anos luz M 55 é relativamente próximo.  M 55 é um alvo gratificante quando passeando por estas bandas de Sagitário e com seu grande disco facilmente resolvível é um oásis para o astrônomo amador depois de buscar M54, M69 e M70 na base do bule.
            M 55 se apresenta para meu 15X70 mm como uma bola de luz. Talvez você perceba uma estrela junto a seu centro mas esta é um objeto em primeiro plano e não pertence ao globular.
            Já com o Newton ( Um refletor de 150 mm) com 48 x de aumento ele enche uma área consideravel e resolvem se estrelas até seu núcleo . Especialmente com visão periférica. Os espaços vazios entre estas se devem, alem de sua baixa concentração, a um grande numero de estrelas abaixo de 14a magnitude. M 55  possui cerca de 269.000 massas solares. Mas como a maioria de suas estrelas brilha na casa de 17a  magnitude ele se disfarça de aberto facilmente.

            Não é um alvo fácil de ser localizado sem go-to.  O satr Hoop até ele pode ser difícil . comece por Nunki e trace uma linha até Tau Sagitário. Depois siga esta linha mais dois campos de buscadora e comece e escanear com uma ocular wide field. Seu brilho de superfície baixo é um desafio em noites de lua e em locais de poluição luminosa.


            M11 por sua vez é bem mais fácil de ser localizado. Em pequenos telescópios ele simula um globular. Ele e M 55 brincam com sua percepção e um tente parecer o que o outro é.
            M 11 foi descoberto pelo quase desconhecido Gottfried Kirch. Ele é um dos "favoritos" de quase todos  astrônomos amadores. É dos mais ricos e brilhantes aglomerados abertos visíveis de nosso planeta. Kirch viu " um pequeno e obscuro local com uma estrela brilhando através deste". Muito semelhante ao que você vai ver com pequenos telescópios.  Messier  descreveu assim:"servado em 30 de maio de 1764- Aglomerado com grande numero de estrelas que só podem ser vistas com um bom instrumento. Com um refrator simplees de 3 pés lembra um cometa. este afglomerado é ibuido de tenue luminosidade.Existe uma estrela de 8a mag. no aglomerado."


         Vai mimetizar um  globular. Telescópios maiores resolverão a encrenca em centenas de estrelas. Na verdade ele possui mais de 2000 membros. Um numero assombroso para um aglomerado aberto. E com mais de 500 acima da 14a  magnitude ele se passa bem por um Globular disperso. Eu diria que XI na escala Shapley....  
            O Admiral Smyth achou que o grupo lembrava um bando de patos em migração. É...
            Como já falamos aglomerados abertos tem uma população bem diferente de globulares. E M11 não é diferente. A maioria de seus membros é de "jovens" e quentes estrelas do tipo A e F. Mas alguns de seus membros são do tipo O e B e já tiveram tempo para deixar a sequência principal e tornarem-se gigantes vermelhas . Isto dá ao aglomerado um belo colorido. Sua idade é alvo de forte discussão. Encontrei valores entre 100 e 500 milhões de anos... Como a maioria dos abertos ele reside nos braços da galaxia e bem mais perto que a maioria dos globulares. 6000 anos luz. O globular mais próximo fica a mais de 7000.

            No final de inverno nossos dois convidados se apresentam alto no céu logo no inicio da noite. São um excelente programa para ver como dois DSO´s podem ser semelhante e a o mesmo tempo completamente diferentes. Um belo exemplo da  morfologia e variedade  galáctica.
            O diabo esta nos detalhes.

domingo, 16 de agosto de 2015

M 54 - Um Globular Distante

   
    


           M 54 é o Globular mais a leste na base do "Bule"  , o asterismo que marca a constelação de Sagitário, entre as estrelas Ascella e Kaus Australis. Não é um alvo fácil de se localizar sem o auxilio de go-to.  O globular é provavelmente tênue demais para ser percebido através de sua buscadora mesmo  em locais de pouca poluição luminosa.

                Observando com meu binóculo 15X70 mm ele se apresenta como uma estrela fraca e que não dá foco. Um daqueles "impostores de cometa" que justificam sua presença no catalogo Messier . Na verdade um bom exemplo para justificar o catalogo...
2X Drizzle. 15X15seg. 
                Quando observado com um refletor de 150 mm com  48 X de aumento o aglomerado continua se apresentando como uma nuvem de luz sem se resolver. Com 120 X pouca coisa muda e com visão periférica um ou dois pontos "tentam" surgir em suas bordas.  Não espere resolver nada de grandiosos com telescópios com menos de 250 ou 300 mm.  Eu sempre percebo um núcleo estelar "arrodeado" de um halo amarelado que é uma nuvem de luz tentando ser areia.  É uma visão bem poética do que é um discreto e distante globular...
                Messier o viu como " Uma nébula muito tênue descoberta em Sagitário. O centro é brilhante e não contém estrelas.Observado com um refrator Acromático de 3 e 1/2 pés. " É uma descoberta original de Messier e foi registrado em 24 de julho de 1778 . William Hershel conseguiu resolver algumas estrelas em sua bordas. Sendo classificado como um Globular de tipo III na escala Shapley ( 1 máximo de concentração e 12 o minimo)   ele é bastante concentrado e isto torna ainda mais difícil resolver estrelas individuais . As estrelas mais brilhantes deste se encontram na faixa de 15a magnitude
               
                M 54 é o globular mais distante no Catalogo Messier. Há 89.000 anos luz existem indícios de tratar-se de um Globular extra-galactico. Estudos capitaneados por R. Ibata, M. Irwin e G. Gilmore descobriram uma galaxia elíptica anã que passou a ser chamada de SagDEG ( Sagittarius Dwarf Eliptical Galaxy) que se encontra na mesma direção e distância de M 54. Estudos posteriores confirmaram que ambos viajam na mesma velocidade e na mesma direção. A galaxia propriamente dita ficou desconhecida até 1994 porque é fortemente obscurecida pelas nuvens de poeira que habitam a Via Láctea em direção ao seu centro.  
                A pequena galaxia estaria agora sendo canibalizada pela Via Láctea . O Processo alimentou uma interessante hipótese sobre a origem de globulares. Alguns astrônomos agora acreditam que Aglomerados globulares são o produto de um processo de choque e absorção de galaxias. Quando duas galaxias colidem ou ocorre um  o processo de absorção  pode ocontecer a uma onda de formação estelar e/ou deixar restos de material galáctico acretado que se tornariam aglomerados globulares.  M 54 seria um exemplo deste processo. Há também quem acredite que M 54 seja o núcleo de SagDEG. E que globulares podem ser os núcleos de galaxias que foram canibalizadas durante a formação de galaxias maiores e dominantes. Em 2009 foi descoberto indícios da existência de um buraco negro de massa intermediaria no centro de M 54 . Isto viria a contribuir com a hipótese deste ser o núcleo de uma pequena galaxia.  Outro dado que corrobora esta hipótese é que estando a distancia estimada correta o insignificante M54 seria, na verdade, um dos mais brilhantes aglomerados globulares da Via Láctea, atrás apenas de Omega Centauro    . Ele brilharia com a luz de 850.000 sóis e teria uma magnitude absoluta de -10,01.
                Embora discreto na ocular é um belo  desafio para qualquer instrumento óptico e um alvo de grande interesse cosmológico.

                

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Astrofotografia, Andrômeda, Globulares e as Perseidas

     
     
           "Há males que vem para bem e  agosto é um mês de desgosto".
            Se Lembrarmos   do que  se aprende nas aulas de Lógica 101 e esta escrito  "Propedêutica Lógico Semântica " do Tungendarth  saberemos que este tipo de   proposição composta,  é chamada tautologia, quando p (Há males...) e q ( agosto...)  assumem valores lógicos V(erdadeiros) em todos os casos possíveis ( ou "verdade lógica" se me lembro das tais aulas...) . Pode ocorrer  também  o oposto: certas proposições compostas, chamadas de contradições, assumem valores lógicos F em todos os casos. O meio termos entre os dois casos anteriores são chamadas contingências.   E assim sabemos que a proposição que abre este texto é uma contingência lógica. Como a maioria delas. Menos nas provas de Lógica 101 quando os professores adoram   colocar  uma negativa na frente das proposições e aí quando você chega a uma contradição depois de aplicar as tabelas de verdade ela é uma verdade lógica... Esclarecendo p e q tem que ser verdade para que a proposição acima ser uma tautologia. E como ,em agosto, o miolo da Via Láctea passeia sobre nossas cabeças logo no inicio da noite q é falso. Pior. É mentira mesmo...
            Aproveito que a patroa não entende nada de lógica e alego  a necessidade um de um plano de  contingência devido a Mme. Herschel e o Newton ( minha cabeça equatorial e meu telescópio respectivamente) terem ficado abandonados em Búzios graças  a falta de espaço no carro e portanto estarem  expostos a perigos inimagináveis. Apesar da conversa ser  para lá de fiada eu consigo um daqueles momentos onde é possível acreditar que a felicidade existe e o mundo é perfeito. Parto sozinho para Búzios com alforria para passar a noite de 11 para 12 de agosto sozinho observando. Ninguém para querer acender luzes , falar comigo ou me perturbar de alguma forma. Sem mulher, filhos , cunhada, agregados  ou gato para me atrapalhar. E ainda por cima é a temporada de Perseidas e Lua quase nova...  Ao contrario do que muitos dizem eu acho que observação astronômica é bom sozinho.  Se acompanhado que seja por alguém que goste do assunto. Curiosos só atrapalham... Ainda mais quando Saturno ou a lua estão presentes.  
            Depois de cerca de três horas de viagem adentro a reta da Praia Rasa e percebo que o nordeste venta forte. Bom Sinal.  Ruim para o seeing mas garantia de tempo limpo.  Há males que vem para bem e como já falei Mme. Herschel é uma plataforma sólida e que resiste bem aos ventos de uma das melhores raias de vela do mundo. Poderiam transferir as provas de vela da imunda Baia de Guanabara para as cristalinas aguas da Armação... Eu tinha tudo planejado e consultando o 7 timer ( Site de que oferece uma previsão "para astrônomos")  ele me garantira que na noite em questão o céu estaria limpo , o vento apenas fresco , o seeing me permitiria dividir duplas separadas por 1,25 e 1,5´´ de grau , a transparência  seria de 0,5 a 0,6 (magnitude por massa de ar e também chamada de extinção ) e não iria chover nem com reza braba e encomenda feita s para o Cacique Cobra Coral realizadas pelo governador e o prefeito...  

            Em uma rápida passagem no mercado compro meu kit básico de sobrevivência para a longa noite de observação que me aguarda. Tenho uma consideravel lista de DSO´s que pretendo registrar. A derrota planejada é fotografar M83 logo no começo da noite e depois cair matando nos Globulares Messier que ainda não fotografara tanto em Sagitário como em Ophiucus. Uma plano ousado e bastante ambicioso com viria a ser provado...
            Já em casa inicio realizando uma a colimação que deveria ter sido  feita logo após o desmonte do Newton para a instalação de seu novo focalizador e para limpeza dos espelhos. Neste momento agradeço o Newton ser f8 e poder realizar tal tarefa apenas com a ajuda de uma chave allen  para o ajuste do secundário  e de minha já cansada vista direita.


            Com tudo montado e esperando o céu se acender me deito na rede e começo a folhear meu presente de Dia dos Pais. A tradução do "Ética" de Spinoza nova e  feita por Tomaz Tadeu pretende "verter" o original em latim para um "português brasileiro contemporâneo", sem sacrificar a terminologia filosófica de Spinoza. Engraçado é que os primeiros textos deste foram escritos em português... Assim reza a lenda.
            Não é livro para folhear-se à rede e antes da terceira definição desisto de tamanho esforço e busca algo mais leve na  biblioteca no HD do lap top.

            Pretendia realizar o alinhamento polar utilizando Gama Tri Aus com estrela guia. Ela estaria cruzando o meridiano as 17:53:10. Um erro . Ela é uma estrela tênue demais( com magnitude 2.85)  para tal tarefa ainda no twilight. Mas queria ter o telescópio alinhando o mais cedo possível a fim de ter M83 ainda bem alta no firmamento no momento de fotografar-lhe. M83 é uma pedra em meu sapato. Já a observei diversas vezes. Mas sempre com o "Pau de darem Doido"  ( um binóculo Skymaster15X70) e de locais muito escuros. Em céus menos generosos e com meus telescópios eu poderia citar alguma definição de Spinoza a respeito de essência ou existência para clarificar as visões que já tivera desta. O resultado é que o alinhamento polar ficou a desejar. Daqui para frente só utilizarei estrelas abaixo de 2a magnitude para a tarefa. Tivesse aguardado mais um pouco e utilizado Atria para iniciar o alinhamento polar teria feito fotos bem melhores e tido um go-to funcionando com muito mais precisão.
            Com o go´to meio descalibrado depois de varias tentativas de alinhamento utilizando o modo 2 estrelas eu ( ansioso) me dou por feliz em ter os alvos próximos na buscadora.
             Como Lacaille conseguiu observar M 83 com uma luneta 8X30mm eu achei que conseguiria também . Nem que demorasse um pouco mais escaneando o céu com a ocular de 25 mm.
            Messier fez a seguinte descrição de M83 em seu catalogo: " Nébula sem estrelas próxima a cabeça do Centauro. Se apresenta como um afraca e homogênea luminosidade mas tão dificil de ser observada com o telescópio que qualquer iluminação no micrometro a faz desaparecer e que demanda considerável concentração para ser percebida de qualquer maneira. Forma um triangulo com duas estrelas consideradas de sexta e sétima magnitude..."
            Devo imaginar que os céus na Cidade do Cabo durante o Sec. XVIII deveriam ser muito mais escuros que em Geribá hoje em dia. Ainda continuo considerando comprar uma espingarda de ar comprimido. E eu sei que  Lacaille possuía  uma acuidade visual muito superior a minha.
            Mais tarde e com a galaxia já baixa no firmamento desisto dela.
            Vamos para a segunda parte do plano sonhado. Inicialmente eu fotografaria M83 ( que já fizera forfait) e todos os globulares do catalogo Messier que eu não tivesse capturado antes em Sagitário e Ophiucus... Eram estes  M 09, M 10, M14, M19, M28, M 54, M 69, M75 e M 107.
M 09 

             A fim de me recuperar do fracasso escolho um alvo fácil e mando Mme. Herschel em busca de M 28.  Um globular ao lado de Kaus Borealis e visível mesmo pela buscadora. Pronto, volto a rota estabelecida na minha tão "organizada" derrota.  M 69 é o seguinte. esta parte ao menos parece que vai dar certo. Inocente eu...
M 28
 . 


            Em muito mais tempo do que imaginei consigo capturar todos os Globulares Messier que ainda não tinha observado e/ou fotografado em Sagitário.  Em Ophiucus só consegui M 09.  
M 69


            M54 e M75 são alvos difíceis . Mesmo utilizando 48X de aumento diferencia-los das estrela no campo demanda atenção. Impostores de Cometa que fazem jus a sua presença no Catalogo Messier
M 75



M 54 é um alvo dificil. E um globular com uma história bem interessante. Em breve estará em cartaz no Nuncius Australis


            Já passa da meia noite e nuvens começam a atacar a partir de Noroeste. Em pouco tempo esta tudo nublado.
            Eu sei que vai limpar quando o vento começa a soprar novamente. enquanto aguardo abro a garrafa de White Horse. faz frio e minha coluna começa a reclamar bastante de tanto tempo em posições nem tão confortáveis junto a ocular...
            Por volta de 01:30 o tempo limpou novamente. Já mais embriagado e achando a seleção de musicas da Radio Cidade bastante boa parto em busca de novidades no horizonte Sul. Enquanto Crosby , Stills and Nash proclamam" If you can´t be with the one you look, Love the one you with" eu me acalmo pelo fracasso com M 83 e decido tentar NGC 55   . Não dá em nada mas não me abalo. Coloco mais um "shot" de Cavalo Branco  e aproveito que a noitada tinha sido de Globulares faço algumas imagens de um velho e fiel companheiro. Ngc 104 . E como estava perto acrescento C 104 ( curioso que fique tão perto de Ngc 104. Penso que Sir Patrick Moore não fez isto por acaso...)  ao meu portfólio.


C 104 ou Ngc 362. São a mesma pessoa. 

            O alinhamento polar de todas esta fotos deixou  a desejar . Mas de novo me inspiro em Crosby Stills and Nash e vou em frente.  
            A radio em noite especialmente feliz me brinda com Van Morrison and The Band tocando Last Waltz quando decido que tinha que fechar com chave de ouro a madrugada. Alguma galaxia tinha que cair. E seria M31 , A galáxia de Andrômeda. E eu sabia que isto só iria acontecer lá pelas 4:30 da matina... Ainda tinha bastante Whisky . E uma barra de chocolate. descanso um pouco e bebo mais uns dois ou três shots. Finalmente consigo colocar M 31 no sensor da câmera. E apesar de as fotos não ficarem uma Brastemp sou brindado com M31 e um dos poucos meteoros das Perseidas no mesmo frame.
Andrômeda e o Meteoro...

      
Um dos  logaritmos malucos do RnS acaba revelando  M110 ( eu acho...)  . Há males nem tão males assim...

      .      Antes de dormir ainda faço mais algumas imagens embriagadas de M42 e M41 antes de o céu azular.




        

            A noite foi boa .O saldo foi positivo.Saqueei , observei e/ou  fotografei 12 objetos Messier e mais alguns NGC. E consegui completar os  registros fotográficos de todos os Globulares Messier que habitam Sagitário. Alguns deles alvos bem ingratos .

Andromêda Amarfanhada: Esta foto foi feita logo após a Princesa ser salva no rochedo,  de Cetus e  por Perseu. Apanhou na captura , no resgate, no Maxim e no Photoshop... 


             Estava com a coluna em pandarecos e pensei o que seria observar todos os objetos Messier em uma única noite. Preciso me organizar para  controlar a cabeça através do computador...  E tentar ,enfim,  uma" Maratona Messier" para valer.
            Ahhh!  só vi 3 Meteoros . Acho que o o vento afastou a chuva...
           

            

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Você Já Foi à Albireo?

      O título deste     post é uma referência a introdução de um livro que eu acredito que deveria acompanhar todo telescópio de pequeno porte e com um perfil adequado a iniciantes na Astronomia. " Turn Left at Orion". Infelizmente nunca traduzido para o português.  Eu , de tempos em tempos , traduzo uma pagina. No ritmo que vai devo terminar no ano de 2120.

1 Exposição 1/40 seg. Com Barlow 2X

Sem Barlow
                Já que falei da tradução acho importante ressaltar que o título da introdução seria mais bem traduzido como " Como Você  Chega à Albireo? "    ( How do you get to Albireo?) mas não chega a ter importância. Nela Guy Consolmagno  conta como seu amigo Dan o introduziu a astronomia amadora. O convenceu a comprar um pequeno refrator e emprestou-lhe uma penca de livros com estrelas duplas e DSO´s que ele poderia observar. Mas não deu certo. Em primeiro lugar ela  não conseguia se localizar com coordenadas celestes e afins e muito menos sabia quais daqueles objetos estavam  ao alcance de seu modesto telescópio.
                Uma bela noite acompanhado por seu experiente amigo e reclamando de suas agruras foi interrompido por seu guia. :
                -Vamos dar uma olhada em Albireo.
                Albireo é como um rito de passagem para o novatos . É uma estrela dupla fácil de achar e com um contraste de cores que encanta a todos.  A comparação mais comum envolve sempre um Topázio e uma Safira... Atualmente Consolmagno é um dos "bam-bam-,bams" do Observátório do Vaticano e escreveu junto com seu amigo " Turn Left at Orion" para aqueles que como ele queriam se iniciar na astronomia e que compraram um pequeno telescópio.
                Albireo é realmente deslumbrante em telescópios de qualquer tamanho e tem uma história bastante interessante. Eu poderia dizer que seu nome remonta a um antigo rei. Mas na verdade o Rei Albireo que conheço é apenas um personagem fictício de um "role playing game" chamado The Tale of the Cryptids. Sue nome atual é fruto de uma serie de más traduções e diversos mal-entendidos...  
                Habitando a Constelação de Cygnus , O Cisne, e sendo Albireo localizada onde deve estar a cabeça do cisne Albireo é chamada ,as vezes, de " The Beak Star" ( em por tuges ninguém se refere a ela como a Estrela -Bico...) . Mas os astrônomos árabes da antiguidade e da idade média a batizaram Minqãr al- Dajãja ( O Bico da Galinha.) E aí começa uma grande confusão envolvendo a constelação , a estrelas e os tradutores... O nome original da constelação ( em grego) era Ornis. Se tornou Urnis em Arabe. Quando foi traduzida para o Latim ( não se sabe o culpado...) acreditou-se que o nome se referia a uma planta Erysimum officinale que era conhecida no latim vulgar como ireo. Para algu´m achar que Ab ireo era um problema na gráfica e então se tornar Albireo foi um passo.

                Localizar Albireo é muito fácil. Ela é também Beta Cygni e  como Cygnus é uma das constelações mais manjadas do inverno não vejo nehum problema mesmo para os iniciantes. As estrelas mais brilhante s deste formam um cruz e um asterismo chamado de Cruzeiro do Norte . Albireo é a estrela mais ao sul  ( mais alta no céu) do eixo longo desta cruz no Horizonte norte. E sendo de 3a magnitude é facilmente percebida mesmo em locais de bastante poluição luminosa.
                Se você possuir um bom binóculo e mão firmes já vai ser capaz de perceber que Albireo não é apenas uma estrela pendurada na via lactea. Albireo A é uma estrela alaranjada de 3a magnitude..   Albireo B é sua companheira azulada de 5a magnitude.  O contraste é impressionante.
                Birmingham nos conta que Cygnus possui muitas estrelas de cor profundamente vermelhas e alaranjadas e por isto batizou esta região de " A região Vermelha de Cygnus" ( já Hinckley estende a area por Cygnus, Aquila e Lyra) .
                Como toda estrela dupla  é melhor observar a dupla  se utilizando telescópios . Separadas por 35 ´´ de arco não é necessário muita ampliação para resolver a questão.
1seg de Exp. Com barlow




                O famoso observador de estrelas duplas Otto Struve examinou Albireo em 1832 e chegou a 34´´ de arco. Apesar da pequena mudança a maior parte das autoridades acredita que mesmo estando a pelo menos 4.400 unidades astronômicas uma da outra elas forma um sistema binário verdadeiro e que assim demoram mais de 100.000 anos para completarem sua jornada ao redor do seu centro de gravidade.
                Hoje em dia sabe-se que Albireo A é em si uma dupla muito mais próxima composta pela já falada estrela de 3a magnitude da classe K ( K3) gigante  que se encontra estável e realizando já a fusão do hélio com uma estrela mais quente e menos brilhante ( magnitude 5.5) de classe B  que continua na sequência principal e consumindo seu hidrogênio ( uma anã B9) e que não são facilmente separáveis de forma óptica.   A nossa "estrela"  ( adorei o duplo sentido...) alaranjada gigante possui uma temperatura de 4.400 K , uma luminosidade de 950 sóis, um raio de 50 sóise uma modesta massa de apenas 5 sóis.Já sua companheira mais próxima queima com 11.000 K , um brilho de 100 sóis e 3.2 massas solares. São separadas por 40 UA e completam sua orbita muito excêntrica uma em volta da outra em cerca de 100 anos.   Já nossa safira que é Albireo B é , de certa forma , assemelhada a nossa amiga azulada e mais próxima de Albireo A.  É ua anã da classe B  (B8) com uma temperatura de 12.100 K a Luminosidade de 190 sóis e uma massa de 3.3 sóis. Ela se distingue por girar muito velozmente atingindo em seu equador mais de 250 km por segundo e um período de rotação de 0.6 dias. Como é comum em estrelas que giram tão rápido ela é uma  Estrela Be ( e de emissão...) que esta perdendo matéria e rodeada por um disco de gás feita dela mesma... 
                De Albireo B  Albireo A apareceria como uma brilhante laranja com um ponto azul   cerca de 30 ´ de grau separados e com a laranja brilhando com a intensidade de 35 luas cheias e a anã com cerca de metade disto...         Uma espécie de remake gigantesco do que nós podemos ver aqui da terra quando olhamos para elas...
                Um truque legal para perceber ainda mais o lindo contraste de cores no par é desfocar levemente sua imagem...
                Cada pessoa percebe as cores de uma forma um pouco diferente.  Assim Albireo é um excelente campo para discussões. Mas independentemente das cores observadas o par sempre garante um forte contraste de cores e mesmo um amigo ( muito) daltônico meu ficou encantando.
                Durante a ultima visita a Búzios não resisti e fiz algumas imagens de Albireo utilizando foco direto e com e sem barlow. Estrelas duplas mais brilhantes são alvos fáceis de se fotografar e podem ser registradas com quase qualquer técnica . Mesmo utilizando método afocal você conseguirá bons resultados.  Localizei um antigo desenho de minha primeira observação de Albireo . Algo como meu  registro de batizado...

               
                E aí ? Você já foi à Albireo? 



sábado, 8 de agosto de 2015

Ngc 6633- Tweedledee e os Aglomerados que Existem

            

               Certos DSO´s são pouco ou nunca observados. Em uma leitura errada e bastante vendida  da física quântica alguns gurus  podem interpretar que  algo que não observamos  não existe.  Claro que só o que nós podemos observar existe. Desta forma eu esporadicamente vou atrás de objetos que não são muito observados. Na maior parte das vezes estes DSO´s não participam do roteiro de viagens por serem destinos desinteressantes. Tipo ir até Itaboraí. Mas esporadicamente eles não existem de fato ou são identificados como algo que não são. Nas diversas revisões descobrimos que varias entradas do Catalogo feito por Dreyer e de nome completo New General Catalog ( Ngc) não existem de fato e outras são asterismos e não DSO´s "puro sangue".  Estes , em geral, não são para ser observados. Não sendo observados não existem. O problema entre isto e a verdade é que se eu o você ou o Deepak Chopra  não observarmos algo não tem a menor importância para a elas... As partículas se observam.  E assim as estrelas também nos  observam. Quando você olha para o abismo ele também olha para você.
                 E emocionado com a nova cabeça equatorial digito um numero ao acaso no controle do Synscan. Ngc 6833.
                Eu acredito que um dos baratos da astronomia observacional é que você pode tentar ver tudo que existe. Depois fazer um registro fotográfico daquilo.   
                Antes ou depois  disto ( geralmente depois) gosto de conhecer o que estou observando. Pelo menos nome, telefone e signo.

                Ngc 6833 ao contrario do que poderia supor não era um destino qualquer. Apesar do adiantado da hora e de um alinhamento polar já desalinhado fiz  umas poucas fotos e registrei a existência do mesmo. É  um aglomerado aberto bem espaçoso e achei que seria melhor observado com meu binoculo 15X70.
                Mas quando pedi o telefone a coisa melhorou. O aglomerado foi descoberto por Cheseaux ( o mesmo descobridor de M17) entre 1745-46. É  a terceira entrada em seu catalogo. Ch.3. Cheseaux criou um catalogo com 20 entradas onde 8 se confirmaram como DSO´s nunca antes observados.  Ele o descreveu de forma bastante simples: " Próxima a Cauda da Serpente existe um pequeno aglomerado de estrelas que se destaca do resto em direção ao oeste."
                Posteriormente foi redescoberto por uma muito querida convidada aqui no Nuncius Australis.Mme. Herschel. Ou melhor Caroline Herschel.  Seu irmão William inclui a descoberta em seu General Catalog ( avô do NGC) como H VII 72.  " Aproximadamente no meio do caminho entre S Serpentarii e Theta Serpentis ,um aglomerado de grandes estrelas. Eu contei cerca de 80". Caroline utilizava um telescópio que apresentava um aumento de 24 X e um campo de um pouco mais de 2o que se revela perfeito para descobrir grandes aglomerados abertos. Foi-lhe dado por seu irmão William para que ela escaneasse o céu em busca de  cometas.
                 Localizado em Ophiucus o grande aglomerado aberto se espalha por  30´ de céu. Sabendo-se que sua distancia de nós é pouco mais de 1000 anos luz  implica  que este se espalha por aproximadamente 8,5 anos luz .   Existem já algumas gigantes vermelhas entre suas estrelas componentes o que faz deste um aglomerado galáctico de idade mais avançada.  660 milhões de anos.   O Aglomerado é bastante estudado e  quase contemporâneo da Híades  e do Presépio ( M44).
                Ngc 6633 se apresenta bem próximo ( 3 o) um outro aglomerado grande e que também se apresenta como um bom alvo binocular. IC 4756. Por esta razão O´Meara em seu "Deep Sky Companions: Hidden Treasures" os apresenta como os aglomerados "Tweedledee" e  "Tweedledum". Personagens de Lewis Caroll em seu  "Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá" e que se tornaram um exemplo clássico de duas coisas semelhantes. Também observei 4756 e posso garantir que este existe. Mas fiquei devendo um encontro mais intimo...   Curiosamente este grande aglomerado ( talvez por seu tamanho) escapou de Cheseaux, de toda família Herschel, Lacaille , Dunlop e todos os observadores pioneiros para ser descoberto apenas através de uma placa fotográfica realizada na Estação de Harvard em Arequipa. Seu identificador foi Solon Bailey.
                6633 é também um DSO que é melhor observado com telescópios de campos grandes ou binóculos.  Por isto talvez tenha  escapado de ser uma jóia mais visitada.
                Observei Ngc 6633 já cansado e em noite de lua cheia. Mesmo com uma magnitude  de 4,6 as descrições apaixonadas de O´Meara  e de Walter Houston me pareceram um pouco exageradas. Mas Ngc 6633 definitivamente existe e é um aglomerado que vale  ser visitado.



                Localiza-lo é bem facil . Localize  Rasalhague ( Alpha Ophiucus) e seguindo rumo ao leste  e localize 71 e 72 Ophiucus. Sendo a distância destas até Rasalhague um passo dê mais um passo na mesma direção e chegue até 6633.  A navegação será fácil pela buscadora.
                Novamente O´Meara nos conta que ele e um amigo conseguiram perceber "Tweedledee" e Tweddledum" a olho nu e chegaram quase  a perceber estrelas individuais  sob  o céu muito escuro do cume do Mauna Kea ( mais de 4000 m de altitude....).
                Com a Lua cheia não percebi nem mesmo algum gradiente de luz na região. O aglomerado se manifestava apenas na buscadora. Junto a ocular achei o aglomerado  disperso e provavelmente devido a forte lua bem descolorido. Entre seus membros percebem-se diversos mini asterismos mas não percebo nenhuma padrão marcante ou semelhança curiosa...   Realizei apenas umas poucas fotos de Ngc 6633 quando percebi que o acompanhamento não estava bom.
                Apesar de seu tamanho GG incluo ele na mesma categoria que coloquei  Ngc 5269. "Aglomerados que existem".