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quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Astrônomo Desastrado e o Pai da Invenção



Sem visitar o posto avançado em Buzios e aproveitar de um céu um pouco mais escuro ( Bortle 5) desde o carnaval eu tinha grandes planos para a noite de quarta feira.  
Com Selene no terceiro dia após a lua nova tudo se mostrava ideal. O 7timer indicava condições bastante favoráveis à observação. Tudo estava “ideal demais”...
Saí do Rio acompanhado de minha cunhada ainda cedo. O transito ajudou. Chegamos em pouco mais de duas horas.
Montei o telescópio e com tempo sobrando resolvi inventar. Dizem que a necessidade é a mãe da invenção. Pode ser verdade. Mas o ócio é o pai...
Procurei por uma ocular com um reticulo iluminado em diversas lojas (ok, em duas...) e não encontrei. Enquanto aguardo por uma de verdade eu invento...
Possuo algumas oculares Kelner que praticamente não utilizo. Daí a  tal da invenção...
A casa passou por algumas reformas desde a ultima visita e rapidamente me assenhoreei do novo coreto.
 Com o telescópio montado na sua frente utilizei a pequena mesa como minha base.  Uma rápida visita a loja de ferragens e a padaria e “voila”.
Descasco um fio paralelo e acabo com quatro fios de cobre de+- 0,1 mm.
Com o auxilio luxuoso de um rolo de fita crepe fabrico uma ocular reticulada de 20 mm. E assim me mantenho fiel a astronomia de baixo custo. 
A ida até a padaria é também parte do plano de observação.
Quando você vai passar a noite junto a um telescópio alguns luxos são necessários. A alimentação é algo fundamental. Logo duas latas de red Bull , um queijo minas e uma barra de chocolate serão meus companheiros. Compro também meia dúzia de Stella Artois. Estas para depois de realizar o grosso das observações planejadas. Como já contei aqui os amigos, a bebida e você mesmo são os maiores inimigos que um homem pode ter. Desta vez vim sem amigos e não poderia deixar as coisas correrem tão frouxas assim. Afinal o homem é o exercício quem faz...
Quando comecei a observar me lembro de ter lido em quase todos os lugares que uma visita até um clube de astronomia e consequente convívio com outros astrônomos seriam uma das melhores coisas que eu poderia fazer.  Eu nunca realizei isto. A astronomia para mim é uma atividade solitária. E prefiro aprender (ou não...) tudo do jeito mais difícil. Admito que como nunca observei junto a outros astrônomos tenho por principio que quanto mais gente por perto pior para a pratica astronômica.
Meu plano inicial é dar continuidade a meu projeto de fotografar todo o Catalogo Lacaille.  E se possível fazer um tour visual pelo aglomerado de Coma-Virgo. È outono e assim sendo “Galaxy Time”.
Mas o objetivo principal é fotografia.
Astrofotografia demanda um alinhamento polar muito mais preciso que o costumeiro. E por isto a ocular reticulada. Veja este vídeo e você vai entender o porque de tanta criatividade....
Recentemente fiz um post falando como realizar o método do drift.   E com este texto aberto no computador e com a minha reticulada tabajara no telescópio aguardo o sol se por e poder começar o meu alinhamento. Aproveito para nivelar a cabeça. Isto é um procedimento que as vezes esquecemos e que torna o alinhamento muito mais difícil , senão impossível. Tudo correndo perfeitamente. Talvez “perfeitamente demais”...
 Como comecei as preparações muito cedo ( 3;30 pm) tive todo o tempo necessário para fazer tudo que não tinha feito. Como adoro buscadoras possuo duas ao telescópio. E assim consigo ainda dar mais uma saída e comprar uma bateria para minha “red dot”. E descubro que esta sendo de 3 volts qualquer modelo serve. A bateria indicada é a 3026 ( a mais fina...) só que Buzios em geral e Geribá em particular não oferece muitas opções . Assim compro uma 3032 ( a mais grossa). E funciona também. Vivendo e aprendendo. Tudo dando certo. Talvez “certo demais”...
Um ajuste na colimagem. Só para não perder o habito e finalmente anoitece.
Ajustar as buscadoras. As coisas começam a não dar tão certo...
E agora o bendito do alinhamento. Será que a “reticulada” vai funcionar? Faltava ainda iluminar o reticulo. Meu plano era realmente mambembe. Com minha lanterna de led vermelha presa a aranha do secundário eu iluminava o reticulo. O problema era que as estrelas que eu utilizaria para o alinhamento teriam que ser bem brilhantes. Curiosamente a ocular até que funcionou. Já o alinhamento polar nem tanto.  Nem tanto até demais...
A parte boa é que meu projeto continua na prancheta e creio que o próximo “protótipo” é promissor...
Era dia de improvisar e com minha cunhada instalando luminárias novas pela casa o meu projeto começa a desandar ( como eu disse quanto mais gente por perto pior para observar...). Assim após ver que era possível fazer o drift com a reticulada eu desisto de tanto elaboração e parto para a ignorância.
Faço algumas fotos de Ngc 6231 em Escorpião. Um horror . Em vez de me comportar da forma certa  e recolocar a “nova ocular” e refazer o drift eu prefiro ir por tentativa e erro. E abro uma cerveja...
M7 
Ao final da noite tinha algumas fotos medíocres de 6251 e de M28. M7 também foi vitimado pelo autor...  Pelo menos 6251 e M7 fazem parte do catalogo Lacaille. Respondem respectivamente pelas entradas Lac II. 13 e Lac II. 14. 
M 28

Ngc 6251

Como bônus M71 foi um objeto que avistei assim meio que por acaso. Não me recordo de já o ter  avistado antes. E como se encontrava  naquela posição que foi responsável pela criação da  palavra “incomodo”  eu desisti de fotografa-lo. Definitivamente cabeças equatoriais e objetos muito próximos ao meridiano são inimigos mortais.
Por fim, já com a coluna cansada de malabarismos junto a ocular com DSO´s que vão agora próximos ao zênite  pego meu binóculo mais novo e me deito em uma canga. E faço um tour clássico. Começo pela cauda de escorpião com M7 e M6 no mesmo campo binocular. E aí é só seguir a corrente. A partir do Bico da chaleira ( asterismo que identifica a constelação de Sagitário): Ngc 6522 , M28 , M22, M8 , M21, M20. Um pulo para o outro lado do rio galáctico e M 17, M18 , Ngc 6605  e mais vários aglomerados abertos e globulares que não me dou ao trabalho de identificar ( M25 e M23 liderando o pelotão..). Depois tento os Globulares Messier mais discretos que se escondem embaixo da chaleira. M69, M70 e M54. Pequenas estrelas que nunca dão foco. Mas são alvos para mais abertura.
No final entre mortos e feridos salvaram-se todos . E a noite foi divertida.
Quanto a meu plano inicial eu me consolo que tudo estará lá pelo menos durante o próximo milhão de anos.
No dia seguinte o tempo fechou e voltei para casa e para prancheta. Espero mostrar em breve minha “nova” ocular com reticulo iluminado “home made”. Agora com 10 mm e com um Led vermelho no proprio corpo da ocular. Quase de verdade... 

P.S. - Quando já entrava no carro para retornar para o lar Murphy mandou seu recado. O tempo limpou como que por mágica. Mas aí já era tarde para abortar a missão. Tiro uma foto da Lua como consolo. Pelo menos desta vez não vi varios riscos cruzando a foto...  

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Escala Bortle

     Escuridão é uma palavra que eu acho muito bonita. 
     Segundo o pai dos burros significa :"... qualidade de ser escuro, ausência de luz, negrume ou treva". Termos todos bastante sinistros . E que fazem a alegria dos astrônomos... Já falamos a respeito disto a algum tempo. 
      Agora por razões praticas volto a esse assunto .
     Como determinar quão escuro é o local que você observa?
      Em 2001 John Bortle , um astrônomo amador veterano e caçador de cometas, criou a hoje já conhecida escala Bortle de escuridão ou de Poluição Luminosa. Eu prefiro a primeira opção.Uma escala para medir escuridão soa mais poético. 
       É uma escala de 9 pontos ( quanto menos melhor...) para classificar  a qualidade do céu que nos cerca.  
       A escala Bortle é bastante exigente e causou depressão em muitos astrônomos  .Locais que antes eles consideravam perfeitos não "ranquearam" exatamente bem na escala. 
       Vamos a ela....

Escala Bortle
Cor em mapas de PL
Descrição do céu
1
Preta
 Local com céu escuro excelente:
·          Nelm (Magnitude limite a olho nu) 7,6 a 8.0
·          Luz Zodiacal, Gegenshein e faixa zodiacal são visíveis.
·          M 33 é obvia a olho nu
·          A via láctea junto a Escorpião e Sagitário apresenta obvias sombras difusas
·          Objetos terrestres (arvores, carros, pessoas...) são invisíveis.
2
Cinza
  Local de céu muito escuro:
·          Nelm de 7.1 a 7.5
·          M33 facilmente visível com visão direta
·          A luz zodiacal continua suficientemente brilhante para lançar sombras longo após o nascer ou o por do sol.
·          Nuvens são visíveis como buracos escuros ou vazios no céu
·          Objetos terrestres só são percebidos vagamente, a menos que se projetem contra o céu.
3
Azul
Céu Rural:
·          Nelm 6.6 a 7.0
·          Alguma poluição luminosa evidente ao longo do horizonte
·          A via láctea apresenta estrutura complexa
·          Aglomerados globulares brilhantes (Omega centauro, M22 etc..) são facilmente percebidos a olho nu.
·          M33 é notada com visão periférica.
·          Objetos terrestres vagamente percebidos entre 6 e 10 metros.
4
Verde
Transição Rural / Urbano:
·          Nelm 6.1 a 6.5
·          Domos de poluição luminosa evidentes em diversas direções no horizonte
·          Via láctea apresenta estrutura apenas próxima ao zênite.
·          Luz Zodiacal é evidente mas se estica somente até metade do caminho até o zênite.
·          M33 é difícil mesmo com periférica e mesmo assim acima de 50 graus.
·          Objetos terrestre percebidos facilmente mesmo a distancia
5
Laranja
Céu Suburbano:
·          Nelm 5.6 a 6.0
·          Indícios de luz zodiacal somente em dias especiais
·          Via Láctea se apresenta lavada próxima ao zênite e praticamente imperceptível junto ao horizonte
·          Fontes de Luz artificial presente na maioria, senão todas, as direções.
·          Nuvens são obviamente mais claras que o céu.
6
Vermelho
Céu Suburbano Claro:
·          Nelm 5.5
·          Luz zodiacal invisível
·          Via láctea só percebida bem próxima ao zênite.
·          Nuvens muito brilhantes em qualquer lugar do céu
·          Omega Centauro ou M31 dificilmente percebidos a olho nu.
7
Vermelho
Transição Suburbano/Urbano:
·          Nelm 5.0
·          Via láctea Invisível
8
Branco
Céu Urbano:
·          Nelm 4.5
·          Céu alaranjado
·          Podem-se ler manchetes de jornal sem lanterna
·          Algumas constelações familiares são difíceis de perceber
9
Branco
Mega cidade:
·          Nelm 4.o ou menos
·          Todo céu é claramente iluminado
·          Diversas constelações familiares são invisíveis


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conquistadores do Inutíl, Astronomia Urbana e Ngc6541


          
            Astronomia urbana é uma luta inglória.
A batalha começa dentro de casa. Sua mulher e sua filha evidentemente que não compreendem o significado de adaptação ao escuro. É  só você começar a observar que começa a circulação pela casa. Acendem a luz do corredor , da cozinha e finalmente a da própria sala. Quando muito pedem desculpa.
            Os vizinhos então parecem até astrônomos, tamanha a técnica  que possuem para sabotar. A praxe é deixar acesa a luz que mais pode atrapalhar sua visão.  
         Muitos, como eu, são obrigados a observar pelo restrito espaço de uma janela. E assim não ter exatamente muito céu a seu dispor.
 Existe a possibilidade de se subir no telhado do prédio. Isto costuma levar os vizinhos a loucura e torna-lo conhecido como um pervertido. E ainda se ver obrigado a dividir o observatório com roedores e outros animais.
            Assim sempre me lembro de um de meus livros favoritos “Os Conquistadores do Inutíl”. Um clássico do Montanhismo.
            A categoria inclui Caçadores de cometas, de Borboletas, de Nebulosas e Amadores em geral.
            De qualquer forma e de qualquer maneira eu insisto. Se não acabarei por me dedicar a meu tão querido hobby apenas uns poucos dias por ano. Se me limitar a observar quando viajo para Buzios ou locais de céu mais escuro não observarei mais que uma  dezena de dias ao ano.
            Como bom conquistador do inútil não só observo da janela de casa como caço tênues nebulosas no período de lua cheia...
            Desta vez pretendo me superar.
            Da janela de casa. Ainda cedo. Sexta feira. E no dia seguinte vem a maior lua do ano. Tudo jogando contra . Mulher e filha a todo vapor. Os vizinhos com tudo aceso.  Supermoon .
            Começo cedo e logo após o anoitecer parto para cima da Acrux. A bela dupla é a prova de bala. Separa-se com 60X.
            Minha filha chega da aula.
Após uma parada estratégica mais uma dupla. Alpha Centauro. Com esta brinco um pouco mais e texto varias magnificações. O Seeing , pelo menos ele, esta bom. Vou até 240X e tudo em ordem.
            Estrelas duplas são pau para toda obra.
            Já  mais tarde resolvo partir para os DSO´s . Parece uma decisão kamicaze. Mas sou um astrônomo e não um rato.
            Lutando contra tudo e contra todos começo a navegação a partir de Atria (Alpha Tri Aus)  e começo errado. Meu objetivo seria navegar até NGC 6101. Um projeto certamente megalomaníaco. O globular brilhando a 9.1 de mag. não é um objeto viável nem mesmo com muito mais abertura do que possuo. Depois de que me vi colando “ Black wrap” ( uma espécie de papel alumínio preto) na tela de proteção de janela para bloquear a luz do banheiro do prédio em frente parto para um alvo mais realista.
            A  partir de Beta Tri Australis navego até o aglomerado aberto NGC 6025. Brilhando em uma magnitude mais amigável ( 5.1) consigo resolve-lo. Já o vi em melhor forma, mas enfim...

            Observar por uma janela é meio como um projeto pré- histórico. Cada estação você pode ver o que passa por ali. E hoje em meu Stonehedge particular eu conseguia avistar Kaus Borealis, em Sagitário. Bem no limite. Se minha janela fosse uma trave de futebol a bola entrava lá onde dorme a coruja. E com Kaus no meio da buscadora eu calço a 25 mm na ocular e parto por um voo cego. E como um caçador de cometas paraguaio acho o impensável. Uma pequena estrela sem foco. Insisto e nada de foco. Eu sei que não é o  meu primeiro cometa. Sei que se trata de um globular.
            
            Uma rápida pesquisa e descubro que se trata de NGC 6541.Localizado na constelação vizinha ao Arqueiro , Corona Australis.  Se apresentando discreto é na verdade um belo aglomerado globular . Brilha com mag. 6.6 e tem cerca de 15´ de arco. As condições são extremas e não resolvo nenhuma estrela. O aglomerado é apenas uma pequena sombra de seu esplendor. Mas esta lá. E eu conquisto o meu cume depois de uma escalada das mais tortuosas. É a primeira vez que eu o observo.
            Por isso astrônomo amador. Conquistador do Inutil... 
            P.S. Ngc 6541 é uma descoberta de Nicollo Caciattore . Um astronomo esperto que batizou as principais estrelas da constelação de Delphinus ( Golfinho) com uma corruptela de seu nome. Descobriu este utilizando um pequeno refrator de 75 mm.  



segunda-feira, 30 de abril de 2012

NGC 4038 e 4039 - As Antenas


           
              
               As duas galáxias que o Nuncius Australis vai apresentar hoje formam um dos pares galácticos mais famosos dos céus. NGC 4038 e 4039 formam juntas, “As Antenas”. Ou ainda Arp 244 a e b no “Atlas de Galáxias Peculiares” de Halton Arp.   
            Aqui nós encontramos duas galáxias em um mortal cabo de guerra. Cada uma delas sendo destroçada pela gravidade da outra.
 Isto leva à uma paisagem complexa de berçários estelares, com sua característica cor avermelhadas, devido ao hidrogênio ionizado (H II). E nuvens azuis de estrelas recentemente energizadas.
            Com o passar do tempo o momentum vai fazer com que uma galáxia escape da outra só para novamente serem atraídas até que finalmente, em futuro distante, se tornem uma só.
            Corvus é uma constelação que serve de guia para algumas de minhas galáxias favoritas. Apesar de não possuir nenhuma estrela acima de mag. 2.6 seu formato trapezoidal em uma região pobre em estrelas do céu outonal a faz saltar aos olhos.
            Nós podemos usar duas das estrelas no corpo do Corvo para nos guiar até o nosso objetivo. Trace uma linha ligando Algorab (Delta Corvi) até Gienah (Gamma Corvi) e continue igual distancia para sudoeste. Aproximadamente no meio desta linha você vai passar por um triangulo de estrelas de 7ª mag. Continue mais um pouco e As Antenas estarão ladeadas por duas estrelas de 9ª mag.
            Em um primeiro momento é possível que você perceba apenas um pequeno esfumaçamento, como é normal em galáxias. Mas relaxe e aprecie... Rapidamente você vai notar o característico formato de um camarão.
            Em céus mais escuros você poderá até perceber alguns detalhes nesta estrutura. Com muita atenção você irá perceber regiões apresentando uma leve granulosidade. Não se trata de ilusão de ótica. É resultado do processo de integração das duas galáxias. São áreas de intensa formação estelar.
            O processo que vai se arrastar por bilhões de anos leva o par  possuir vários nomes. As Antenas são fruto de longas exposições fotográficas. Outro nome é Galáxia do Rabo de Rato.
            Sua aparência por telescópios de médio porte (acima de 150 mm) me lembra de um girino...
            Elas foram descobertas por William Herschel (sempre ele...). Em 1785.
            Para constar: A magnitude visual do par é 10,5. E seu brilho de superfície é 13.3 (Ngc 4038).

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Venus e a Luz Cinzenta


Concepção Artística


Ashen Light é uma expressão que pode ser traduzida como a “Luz Cinzenta”.  É um fenômeno raro que ilumina a noite venusiana. Desta expressão podemos derivar “Ashen Venus”. A melhor tradução, em minha opinião, para esta outra expressão seria “As cinzas de Venus”.
 É uma licença poética.
E por isto mesmo muito precisa para definir este fenômeno.  Como muito bem disse Antonio Abujamra em seu  Palmeira do Deserto: "Quando não entendo o que defino, eu me aproximo de tudo que  chamam poesia".
A luz cinzenta é um fenômeno descrito pela primeira vez por Giovanni Batista Riccioli em 1643. Posteriormente foi também avistada por grandes nomes da astronomia. Ente eles William Herschel e Sir Patrick Moore. Phill Harrington dedica algumas paginas em seu “Cosmic Challenge” falando sobre como observar as “Cinzas de Venus”.
 Nunca foi fotografado e isto alimenta ainda mais a lenda.
O fenômeno, basicamente, consiste em se perceber uma tênue iluminação da parte não iluminada (soa contraditório?) do disco venusiano ou do que podemos chamar da noite venusiana.
O fenômeno nunca foi observado com mais de 40% do disco iluminado e assim o período se anuncia como um excelente momento para se tentar a sorte. Ao final do mês de maio estaremos nos despedindo de Venus por um bom período e seu disco chegará a menos de 1 minuto de arco iluminado.
Diversas explicações já foram dadas para o fenômeno. Nenhuma é garantia de sua causa...
Vão desde relâmpagos iluminando a atmosfera venusiana passando reações químicas alimentadas por radiação infravermelha. A mais desvairada das explicações foi de autoria do astrônomo alemão do século XIX Franz Von Paula Gruithuisen. Ele atribuiu à luz cinzenta a fogueiras feitas em honra de um novo imperador venusiano.  Literalmente as responsáveis pelas “Cinzas de Venus”...
Uma técnica observacional, que parece ser recorrente na literatura sobre a luz cinzenta, é utilizar uma barra para cobrir a parte iluminada do disco planetário.
            Já disse que o fenômeno nunca foi fotografado.
            Alguém se habilita?

domingo, 15 de abril de 2012

M 44: Um Estranho no Ninho


M 44-- 12 exp.x20 sec. DSS.


M 44 é uma espécie de estranho no ninho no catalogo Messier.
Conhecido desde a antiguidade este objeto  não seria confundido, com a ajuda de qualquer auxilio ótico, com um cometa nem mesmo por uma criança.
 Aratos já havia registrado a nebulosa em 260 A.C. Ptolomeu o inclui em seu Almagesto.  E Galileu o resolveu em estrelas:
“... A nébula chamada de Presépio, que não é uma única estrela, consiste de uma massa de aproximadamente 40 pequenas estrelas.”
Ele possui diversos nomes. Os mais famosos são aglomerado da Manjedoura e/ou Presépio (Praesepe) e Aglomerado da Colmeia.
 O primeiro nome surge do fato de ele ser escoltado no céu por duas estrelas da constelação de Câncer . Respondem pelos graciosos nomes de Asselus Australis e Asselus Borealis. Os “burrinhos”.
 O segundo me parece um pequeno equivoco. Deveriam chama-lo de enxame. Foi exatamente o que vi quando o visitei a primeira vez. Ao ver este pela minha buscadora 9x50 é exatamente como um enxame de abelhas. Só falta fazer barulho. Escolha você o coletivo que mais lhe agrada...
Para localizar M 44 inicie pelos gêmeos,Castor e Pollux. As estrelas mais brilhantes em Gêmeos. O gêmeo mais ao norte é Castor. Ele é azul. Mais ao Sul vem Pollux com seu brilho amarelado. Nossa régua é a distancia entre os irmãos. Caminhe três vezes a distancia entre eles para o sul depois de mais um passo a direita (LESTE). Agora você deve estar mais ou menos no meio do caminho entre Pollux e Regulus (Alpha Leo). Duas tênues estrelas devem ser visíveis. São os “burrinhos”. Uma nebulosa deve ser percebida entre eles. É a manjedoura de onde eles se alimentam. Em ambiente suburbano os "burrinhos” serão visíveis. Já a manjedoura vai depender. Em céus rurais M 44 é evidente. Resolver estrelas individuais a olho nú é um indicio de visão muito apurada e de condições excelentes para observação. Um desafio...
Olhando pela buscadora o aglomerado será obvio e muitos de seus membros devem se resolver.
Pelo telescópio cerca de 50 estrelas serão visíveis. Você vai perceber diversas duplas. Muitas das estrelas do Presépio são bem brilhantes. Entre 7ª e 8ª magnitude. Quatro delas são claramente alaranjadas. A menos que você possua uma ocular bem grande (35 ou 40 mm) terá que dar uma escaneada para cobrir todo o aglomerado.
Assim como a Plêiades esse é um bom alvo binocular. È um aglomerado brilhante e grande e a muitas de suas estrelas resolvem-se com pequena magnificação.
Você esta observando um aglomerado aberto que possui aproximadamente 400 membros e que se espalham por uma área de aproximadamente 15 anos luz. Localizam-se a pouco mais de 500 anos luz de nós (um pouco mais distante que as Plêiades). Alguns de seus membros já se apresentam como gigantes vermelhas e podemos imaginar que este aglomerado tenha uma idade de 400 milhões de anos ou mais.  Um aglomerado relativamente antigo.
O satélite Hipparchos constatou que tanto M 44 como as Hiades ( aglomerado aberto facilmente visível em Touro junto a Aldebaran) podem ter uma origem comum. A direção e movimento próprio  são semelhantes e ambos aglomerados , hoje separados por alguma centenas de anos luz , podem ter se originado de uma mesma grande e difusa nebulosa gasosa em um passado agora distante.
Hiades- 1x 15sec 300mm F4
Sua presença no catalogo Messier é curiosa. As entradas de numero 42, 43, 44 e 45 do catalogo Messier foram incluídas e tiveram sua posição estabelecida na noite de 4 de março de 1769. Todos estes objetos fogem da característica básica para a inclusão no catalogo. Este deveria servir como referencia para caçadores de cometas, que assim não perdessem seu tempo com objetos que os poderiam confundir.
 O Catalogo Messier é o único catalogo da história que incluía objetos para não serem observados.
Algumas línguas alegam que a inclusão destes objetos foi apenas para que a primeira versão do catalogo apresenta-se mais entradas que o catalogo organizado por Lacaille sobre nebulosas do hemisfério sul. Este possuía 42 entradas.
Como a história é irônica. Observar o catalogo Messier se tornou uma das maiores conquistas do astrônomo amador.
P.S. Escondidas entes as estrelas de M44 existem algumas galáxias. Ao alcance de telescópios amadores grandes. Boa sorte...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Velocidade da Luz , Cherenkov e M1


O post de hoje é cheio de convidados ilustres e suas citações maravilhosas. E um pouco de física. Só um pouco.   
O primeiro destes convidados, J.B.S. Haldane , foi quem disse: O Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, ele é mais estranho do que nós podemos imaginar.
Não poderia estar mais correto.  O homem tenta imaginar o inimaginável e neste processo descobre a ciência.  E isto me recorda Gerard Piel: A mais notável descoberta feita pelos cientistas é a própria ciência.
            E assim se descobre, por exemplo, a relatividade. E com ela (mais um convidado) Einstein conclui: Nada pode viajar mais rápido que a luz.
Trata-se de uma constante universal.  C.
O próximo convidado é uma figura já tão “habitue” aqui no Nuncius Australis que eu não vou dizer quem é. Nem apresentar nenhuma citação do mesmo. Seu catalogo de nebulosas apresenta como primeira entrada os restos de uma supernova que iluminou os céus da Terra em 1054.  
Já adivinharam quem é? Vou dar mais uma dica. Os restos desta estrela tem hoje o nome de Nebulosa do Caranguejo. Também chamada de M1.
E agora que já apresentamos o nosso DSO convidado vamos falar de um convidado mais obscuro e nem por isto menos importante.
 O universo é “um pouco” mais estranho do que podemos imaginar. E assim as coisas nunca são exatamente preto no branco. Hoje elas serão Azuis. Ou violeta...
Pavel Alekseyevich Cherenkov ou Tcherenkov (em russo: Павел Алексеевич Черенков) (, 28 de Julho 1904- 6 de janeiro de 1990) foi  Nobel de Física em 1958.
Este ilustre convidado descreveu a radiação que recebe seu nome. Isto acontece quando uma partícula (em geral um elétron) se move mais rápido que a luz.
Antes de acenderem as fogueiras e convocar a inquisição convém lembrar que nada pode se mover mais rápido que a luz. No vácuo.
Mas em outros meios "pode". 
O exemplo mais famoso da radiação Cherenkov é aquele  brilho azulado que vemos nos núcleos (e naquelas piscinas...) de reatores nucleares. Sempre com um brilho azul que empresta um clima radioativo a vários filmes que você já viu.
É tudo verdade. É o efeito Cherenkov se apresentando.
Na água a velocidade da luz é de cerca de 0.75 C. E assim sendo não violamos nenhum principio fundamental e os elétrons podem “nadar” mais rápido que a luz. 
O mesmo efeito pode acontecer em nebulosas. O meio não é a água. Mas também não é o vácuo.   
Com pequenos telescópios você não vai perceber em nenhuma nebulosa uma coloração azulada (talvez com um pouco de imaginação...), mas com o uso de fotografia talvez você perceba em algumas nebulosas um pequeno desvio para o para o azul. Ou  violeta. É Cherenkov se apresentando de novo. A maior parte da radiação é  já em ultra violeta...
Agora de volta ao nosso DSO convidado: M1
Imagem  MAGIC 

M1 , como já falei , surgiu de uma imensa explosão. Esta é alimentada pelo resultado da morte (ou transformação) de uma grande estrela. Seus restos hoje têm pouco mais de 20 km. Mas tem a massa de alguns sóis. Seu campo magnético é mais de 1 trilhão de vezes o da Terra. È uma estrela de Nêutrons. E um Pulsar.  Esta gira 30 vezes por segundo e "ilumina” os filamentos que dão nome a nebulosa.
M1 é um DSO desafiante para os astrônomos amadores. Em pequenos telescópios ela não é exatamente fácil de ser observada.
Lembro-me a primeira vez que tentei localiza-la. Foi um fiasco.
Na época possuía um refrator de 70 mm. E confesso que o que vi se deve mais a minha imaginação do que a presença física de algo...
Com meu 150 mm ela se apresenta em condições suburbanas, mas visualmente não é nenhum espetáculo. È um bom alvo fotográfico.
Mas agora que sei que é lá existem “coisas” que se movem mais rápido que a luz (pelo menos em seus domínios) eu voltei a me interessar.
Como um pobre mortal preso ao espectro visível eu não posso ver o efeito Cherenkov.
De volta ao amadorismo e com um telescópio modesto vamos ao que interessa.
Se você possuir um telescópio com mais de 200 mm e um céu escuro talvez perceba alguma estrutura em M1.
Em geral vai perceber uma pequena nuvem com o formato de uma casca de caranguejo. Bem discreta. Mas chegar até lá não é  tão difícil.  

Lembro-me da primeira vez que a vi de fato. Acredito que o mesmo método sirva para os interessados:
Localizo Zeta Tauri. Abro o Sky Atlas 2000.00 (do Will Tyrion) no mapa mais adequado e começo a procura. O problema é que não é possível avistar o menor indicio da nébula pela buscadora. Desta forma me resta centralizar em Zeta utilizando a minha ocular de 25 mm Wide angle e escanear a área que o mapa me indica. 

Não chega a demorar. M1 é próxima a Zeta mas nem tão próxima quanto poderia parecer pelo meu mapa. Com o uso de visão periférica percebo a nébula pela ocular. Conforme vou me adaptando a nebulosidade se torna mais clara. É muito tênue. Cobre uma área considerável do centro da ocular. Substituo a 25 mm por uma 17 mm. Percebem-se mais claramente os contornos da Nebulosa. Somente isto. Não percebo estrutura de espécie alguma. Fico olhando e resolvo tentar a 10 mm. A imagem fica mais escura e difícil de perceber. O melhor resultado foi com a 17 mm.


Posteriormente, do Alto do Pico do Açu, consegui vislumbrar M1 com meu 10x50. È a coisa mais perto de nada ser e ainda assim ser alguma coisa que conheço. M78, no mesmo binóculo, também se enquadra nesta categoria. E lá também existem “coisas” mais rápidas que a luz.  Em M 42 o fenômeno também já foi observado pelo MAGIC também.
Mais sobre a radiação Cherenkov em (rufem os tambores...):          http://en.wikipedia.org/wiki/Cherenkov_radiation

Mais sobre M1:

 Para quem não descobriu. O convidado que eu não apresentei é Charles Messier.
A intimidade é uma merda - Anônimo