quinta-feira, 21 de abril de 2016

Ngc 2546: O Elefante Naif

     

           Ngc 2546 é um grande aglomerado aberto em Puppis. Mais uma descoberta original de Lacaille . Lac II.4 . Ou seja a quarta entrada de sua categoria II. Por isto entende-se que se trata de uma nebulosa somente para a vista desarmada e que se resolverá em pequenas estrelas com qualquer auxilio óptico. Como Lacaille utilizou lunetas 8X15 mm em seu levantamento dos céus austrais isto é muito verdade. E como disse Walton Welsh  todas as grandes verdades são simples ,se não são , não são verdade alguma.
            A descrição deixada por Lacaille demonstra claramente a natureza de sua classificação: " O que se vê a olho nu são dois confusos grupos de estrelas enevoadas ; mas com o telescópio eles são diversas pequenas estrelas distintas em grande numero e muito próximas."
            O Abbe é bem mais prolixo que na maioria de suas descrições ( ele é bem curto e grosso em sua descrições...) .
            É evidente a a capacidade visual de Lacaille era absurda. Perceber 2546 a olho nu mesmo em céus escuros é uma tarefa para olhos jovens e bem treinados. Com relação ao segundo grupo de estrelas é provável que ele se refira a um brilhante asterismo junto a Lambda Puppis. Este bem mais fácil de ser percebido. Ngc 2546 foi um dos últimos Objetos do catalogo que observei . Pois apesar de sua magnitude na casa de 6 ele habita um riquíssimo campo estelar e pela minha buscadora muitas vezes achei tratar-se apenas de um belo campo estelar em meio a Via Láctea. O Asterismo junto a Lambda ainda ajudava mais nisto. Por minha 10X50 me é duvidoso quem é o asterismo e quem é o DSO. Um daqueles casos que de tão a vista esta bem escondido.
            Para complicar ainda mais as coisas habita  a região o obscuro porém nem tanto aglomerado VdB-Ha 23.  Dunlop na entrada 563 de seu catalogo ( e que é aceita como sendo Ngc 2546)  nos fala em " um grande aglomerado de estrelas de magnitudes variadas , uma figura das mais extensas, não muito rico em fracas estrelas." Sua ultima frase leva a duvida se ele viu ou registrou Ngc 2546 ou VdB-Ha 23. Ngc 2456 é rico em estrela tênues. já VdB- Ha não. Mas é muto provável que ele tenha visto ambos já que seu poder de fogo era bem superior ao de Lacaille.
                   

            Para observar  Ngc 2546 localize  Naos (Zeta Puppis )e pesquisando a região ao redor com qualquer auxilio óptico você ira localizar sua vitima . Busque por  h1 é uma estrela de 4,5 magnitude e bem alaranjada que se encontra em seu caminho e servirá de marco para o starhoop. Lembre-se que Ngc 2546 será o ajuntamento evidente de estrelas na ocular . O mais chamativo na região com vários campos estelares interessantes.

            2546 é um aglomerado bem jovem como a maioria nesta região e tem cerca de 30 milhões de anos. Aceitando-se que sua distancia de nós é de 3.200 anos luz suas estrelas ocupam um latifúndio de quase 65 anos luz de Via Láctea.
Versão Rot n´Stack
            Um dos autores favoritos do Nuncius Australis adora realizar um exercício lúdico que também muito me atrai. Consiste em tentar descobrir padrões cotidianos para coisas além do nosso cotidiano. É assim batizar aglomerado (especialmente os abertos) com apelidos das coisa da Terra. O´Meara dá dois apelidos para Ngc 2546. "O Aglomerado do Coração Partido"  ( que nem ele consegue desenhar ) e o " Adaga e Coração " que lembra a clássica tatuagem de piratas com uma adaga cruzando um coração. Eu já vi seu desenho que apesar de bem bonito sofre do grave problema de as estrelas não estarem exatamente onde deveriam estar .
O Aglomerado do Elefante Naif . Reparem que ele ainda carrega uma pessoa montada.... 


            Eu em um esforço imaginativo sobre humano consegui ,no máximo, chegar a imagem de um Elefante estilo naif , mesmo assim desenhado por uma criança bem nova. Daí o apelido que dei ao aglomerado. "O Elefante Naif".  Confesso que não acho Ngc 2546 um dos mais atraentes aglomerados abertos do céus. Sua foto também foi realizada de forma meio estabanada.  Apesar disto acho que ele não merecia ser tão sacaneado.  Como disse Ibsen  " a beleza é um acordo entre o conteúdo e a forma".  

terça-feira, 19 de abril de 2016

Ngc 4833 : A Mosca, O Bode de Dunlop e a Bandeirada de Lacaille

                  

                     Quando me iniciei nas artes de ver o céu descobri uma figura histórica notável e que apesar de seu papel fundamental na construção do céu que paira sobre nossas cabeças ao sul  do equador  é praticamente desconhecida dos astrônomos amadores na Terra Brasillis.  Nicholas Louis de Lacaille , o Abbe Lacaille. Este cidadão não só criou toda uma família de constelações bem dentro do espirito de sua época ( todas possuem nome de instrumentos científicos) como deixou o planisfério que hoje utilizamos. Não bastando isto ele registrou as mais proeminentes nebulosas do céu austral.  Em seu " Sobre as Estrelas Nebulosas do Céu Austral" ( Sur les Étoiles Nébuleuses du Ciel Austral) de 1755 ele apresentou 45 nebulosas. Destas 38 ou 39 se revelaram verdadeiros DSO´s.  Todas estas entradas estão entre as maiores joias da coroa celestial austral.
                Já sabendo disto tudo e de posse de meu primeiro telescópio me dediquei primeiramente a observar todo o catalogo Lacaille. Pouco depois e já com alguma experiência achei que seria um bela escola registrar todos os "Objetos Lacaille" fotograficamente.
                Entre o inicio e o fim desta grata tarefa passaram-se cinco anos , dois telescópios ( O Galileu , um refrator de 70 mm e o Newton , um refletor de 150 mm) ,diversos binóculos e 3 cabeças equatoriais ( Eq1, Eq2-3 e HEQ5). Bem como duas câmeras DSLR ( Uma cânon 350D e uma T3 ) .
                Mas a fila tem que andar e finalmente venho falar sobre o ultimo dos Objetos Lacaille que faltava-me fotografar.  A grande novidade no front é que não falta mais nenhum.
                Ngc 4833 foi abatido na noite de 10 de abril de 2016.
                Localizado na pequena constelação de Musca este é um aglomerado globular bastante interessante. E de difícil acesso para habitantes ao norte do Equador.
                A constelação de Musca reside ao sul do Cruzeiro do Sul. Sua história remonta ao seculo XVI e faz parte de doze antigas constelações introduzidas nos céus pelos navegantes holandeses  Keyser e de Houtman  em seu caminho para as Índias Orientais.  Em seu catalogo de 1603 de Houtman a  constelação é chamada de "  De Vlieghe" ( Mosca).
                Bayer em seu clássico atlas Uranometria  chama a constelação de Apis , a abelha.
                Lacaille posteriormente chamou-a de Musca Australis em seu planisfério.  Houve um tempo em que existiu sua contrapartida, Musca Borealis ( um apêndice em Aries )... Posteriormente o nome foi encurtado para Musca.
                No caminho até Ngc 4833 não podemos deixar de perceber duas interessantes estrelas em Musca.  Beta Musca é uma interessante estrela dupla e que pode ser útil para se iniciar a navegação até nosso alvo em locais de forte poluição luminosa. trata-se de um sistema duplo bem interessante apesar do pouco contraste de cor entre suas estrelas . Serão divididos com quase qualquer auxilio óptico . Carregam ainda a curiosidade de serem estrelas "fugitivas". Passeiam pelo espaço em altíssima velocidade em comparação ao seu meio . Fazem parte da nossa já conhecida associação Centaurus - Scorpio. Seu período é de 194 anos ao redor de seu centro de gravidade...

                Agora já bem mais perto de 4833 e quase uma parada obrigatória esta Delta Musca.  Trata-se de uma dupla espectroscópica cuja a primaria é uma bela estrela alaranjada. É a estrela mais próxima da Terra na constelação. Ela se apresenta com uma companheira não relacionada na buscadora. LS Musca. Esta é uma variável. Ngc 4833 vai estar levemente ao norte. Em minha ocular 40 mm ambas se encontram no mesmo campo. É interessante retirar Delta do mesmo campo pois esta pode "disfarçar" o globular.
1X20 seg 6400 ASA

                Visualmente o globular é pouco mais que um esfuminho.  Sua estrela estrela mais brilhante arde com magnitude 12,4 e seu ramo horizontal em 15,5. Portanto resolvível em telescópios de médio porte. Em sua foto percebemos ele resolvido . Visualmente isto acontece parcialmente. Um grupo de estrelas mais brilhantes marca o centro do globular recordando de forma modesta M 4 em Scorpio. 
                Lacaille descobriu Ngc 4833 em 17 de março de 1752 e é a entrada Lac I.4. Ou seja: a quarta entrada da Categoria I. Nebulosas sem estrelas.  Sua descrição é como sempre sucinta e precisa: " Recorda um pequeno cometa. Tênue".  Em minha buscadora 10X50 mm é exatamente assim que o globular se apresenta. Lacaille possuía lunetas ainda menos potentes que isto.
                Ngc 4833 é a terceira entrada mais ao sul do catalogo Lacaille ( atrás apenas de Tuc 47 e de Ngc 2070 , a Nebulosa da Tarantula) . Seria de se imaginar que apenas os pesquisadores do céus austrais tivessem registrado sua existência .  Não me foi surpresa que Dunlop o tivesse incluído em seu catalogo. Mas que que em seu registro ele cite Bode foi , no minimo , inesperado: " (Musca 12 , Bode)  Esta é uma bela e arredondada nebulosa, com cerca de 4´de diâmetro, moderadamente condensada no centro. esta , com aumento da ampliação , tem a aparência de um globo de matéria nebulosa com estrelas bem pequenas na sua margem noroeste. Mas com poder suficiente para resolve-lo  a aparência globular desaparece e a mais brilhante e condensada parte é o lado oeste do centro com estrelas consideravelmente espalhadas do lado nordeste. resolvível em estrelas de magnitudes diversas. Uma nebulosa  a oeste (D 164)
                É interessante a inclusão do aglomerado como Musca 12 do catalogo de Bode. Pode ser que se refira a Delta Musca. O catalogo de nebulosas compilado por Bode em 1777 definitivamente não fala do Globular embora localize alguns objetos descobertos por Lacaille. Bode observou a vida toda de Berlim...
11X 20 seg 6400 ASA - Canon T3 Newton 150 mm HEQ5 pro - Percebe-se nitidamente a barra central e a estrela de 7 mag citada por Herschel- 2X Drizzle no Deeo Sky Stacker
                Como não poderia deixar de ser John Herschel em seu gigantesco levantamento do céu austral também deixa seu testemunho sobre nosso convidado:
                ”  Globular , brilhante , grande, redondo , gradualmente mais brilhante em direção ao centro . Estrelas de 14a magnitude e uma de 7a magnitude a noroeste do centro.; Interessante objeto ( h 3444)" 
                Como podemos perceber todos percebem a série de estrelas mais brilhantes a seu centro. Na verdade são um aglomerado de estrelas brihantes dentro do aglomerado que nos transmite esta impressão.
                Ngc 4833 é um aglomerado extremamente pobre em metais com  estrelas apresentando 1/60  da quantidade presente em nosso sol.  É evidentemente muito antigo sendo um daqueles objetos paradoxais quase mais velhos que o universo. Sua idade é calculada em 15 bilhões de anos. Sua distancia não é alvo de muitos conflitos  e todas as fontes nos falam em algo ao redor de 16.000 anos luz.
                Por uma daquela coincidência sem nada a ver com as leis fundamentais do universo mas por isto mesmo muito suspeitas foi o ultimo Lacaille fotografado por mim. Se não um nobre título pelo menos uma bandeira quadriculada...


               
               

                 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Centaurus A- Uma Quimera Cósmica

   

             Ngc 5128 é uma quimera cósmica. Uma galaxia que é um trio elétrico em qualquer região do espectro eletromagnético.  É a quinta  mais brilhante galaxia no espectro visível  , uma das mais intensas fontes de rádio  nos céus ( por isto Centaurus A) e brilha intensamente em raios X e Raios gamas.
                Seu aspecto visual já demonstra tratar-se de um ente especial no zoológico cósmico.  Descoberta por James Dunlop em 1826 é a quita galaxia mais brilhante dos céus. Me é um mistério que Lacaille não a tenha localizado em seu levantamento dos céus austrais. Ela pertence ao chamado grupo M 83 ( descoberta de Lacaille)  e é visualmente muito mais facilmente percebida que a mesma.  
                A verdadeira natureza de 5128 foi alvo de centenas de anos de discussão e ainda dá pano para a manga.
                "Dunlop nos deixou uma longa descrição da mesma:  " Uma nebulosa dupla , cerca de 2 1/2 ´ de comprimento , e 1´de largura , um pouco desigual: existe uma pequena e brilhante estrela na extremidade sul na mais  ao sul das duas , relembrando um núcleo brilhante: a nébula menor e mais ao norte é tênue no centro e possui a aparência de uma condensação de matéria nebulosa em cada extremidade. Estas duas nebulosas são completamente distintas uma da outra e nenhuma conexão da matéria nebulosa entre entre elas. Ha uma muito discreta estrela no espaço escuro entre as duas extremidades da nébula  que se estende em paralelo ao equador próximo."
                O equipamento utilizado por Dunlop era rudimentar. Posteriormente John Herschel ao inspecionar a nebulosa nos apresenta um paisagem semelhante porém menos confusa que  a de seu descobridor: " Um dos mais maravilhosos objetos , uma nebulosa muito brilhante , bem grande , levemente alongada , gradualmente mais brilhante em direção  ao centro em uma figura elíptica , cortada ao meio com um corte bem definido com 40´sec de largura ( a faixa escura...) As bordas internas possuem um brilho como da lua tocando o exterior  em transparência.”
                Em uma observação posterior  ele chamou Ngc 5128 d de " um objeto problemático que deveria ser registrado em uma categoria a parte já que evidentemente difere de uma mera " nebulosa dupla" não devido apenas a singular relação entre as suas duas metades mas também devido a intervenção delicada de correntes da matéria escura  entre elas.
                Na verdade Herschel assim como seu pai acreditavam que tudo no universo era composto de estrelas. Desta forma a matéria escura percebida em diversas nebulosas era uma pedra no sapato da hipótese nebular que abraçavam. Acreditavam ser estas sistemas planetários em formação...  Com o avançar da ciência e com novas ferramentas ( especialmente a fotografia)  estas nebulosas permeadas por matéria escura  , em especial as nebulosas espirais , acabaram levando a um grande passo para a compreensão e expansão do universo . E passaram a ser chamadas de galaxias espirais e as faixas escuras foram compreendidas como faixas de poeira nestas.  Fotos feitas por E.E. Barnard  da galaxia de Andrômeda em 1890 foram um marco nesta transição.
                Recentemente li uma definição de hipótese de um pensador anonimo  que se não verdadeira pelo menos curiosa me chamou a atenção:
" Uma hipótese é uma coisa que não é , mas que a gente faz conta que é , para ver como seria se ela fosse" .  
                Posteriormente achei uma pérola de Conan Doyle nos dizendo o seguinte: Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que pareça , só pode ser a verdade.
                Com isto na cabeça e sabendo que até Hubble se enrolou sobre a natureza de 5128 (Ele a classificou como uma nebulosa local e chamou a mesma de objeto patológico )parti em busca da verdade.  E como sabemos a verdade é filha do tempo e não da autoridade. Desta forma a hipótese mais aceita sobre Ngc 5128 é posterior ao Hubble ser lançado ao espaço  e diz  que nossa quimera é resultado da colisão de uma grande galaxia elíptica que colidiu e se integrou com uma galaxia espiral menor e rica em poeira.  O buraco negro estaria agora consumindo a galaxia menor e o processo de digestão deve durar algo como algumas centenas de milhões de anos.
                Hoje sabemos que este tipo de encontros podem levar ao que chamamos de Galáxias Seyferts , um subgrupo das chamadas Galaxias de Núcleos Ativos ( AGN´s).
                 Ngc 5128 é a mais   brilhante  galaxia Seyfert e também a mais próxima Radio galaxia .
                Sabemos que o centro de nossa convidada possui um gigantesco buraco negro com uma massa equivalente a 55 milhões de massas solares. Provavelmente fruto do encontro seguido de canibalismo entre as duas galaxias já citadas. Este emite jatos relativísticos que são responsáveis pelas emissões nos comprimentos de Raio X e de Radio. Medições destes jatos separadas por mais de uma década demonstraram que a parte mais interior destes jatos viaja a cerca da metade da velocidade da Luz. e suas dimensões são imensas mesmo em se tratando de distancias cósmicas. Os jatos de raio X de Centaurus A  tem milhares de anos luz de extensão e seus jatos de radio possuem mais de 1 milhão de anos luz.
                A distancia de Centaurus A ( O nome de guerra de Ngc 5128 ) é alvo de controvérsia mas sendo ela membro do grupo de M 83 a distancia mais aceita e provável é de 15 milhões de anos luz.  Assim ela se espalharia por
                A colisão que nos levou ao caótico aspecto de Cen A é também responsável por intensa formação estelar . Incluindo aí raros aglomerados globulares jovens. Em fotos realizados pelo Hubble foram identificados 21 globulares típicos. Metade membros do conselho de anciões do universo. Porém com a colisão surgiram outra que habitam a infância quando falamos em Globulares . A colisão ocorreu entre 160 e 500 milhões de anos atrás.

                Localizar Ngc 5128 é uma tarefa relativamente simples. Partindo de Omega Centauro (este mesmo um outro gigante ) siga rumo ao norte pela sua buscadora. Ou escaneie a região com um binoculo antes de partir par o telescópio.  Ela vai se apresentar mesmo em buscadoras 7X30. Em meu 10X50 mm é um alvo fácil e se percebe de forma discreta  as faixas de poeira.
                A primeira vez que observei Cen A em alto estilo foi  na Serrinha do Alambari. Uma area rural de céu bem escuro e a cerca de 1000 metros de altitude. Utilizando o Newton ( um refletor  150 mm f8) e com auxilio de uma montagem com Go-to foi alvo bastante fácil. Mesmo com a cabeça um pouco errática o alvo foi fácil. Com uma ocular de 40 mm percebi seu brilho ainda que fora de quadro. Em leve ajuste e ela estava centralizada. Ao contrario da maioria das galaxias Cen A não é tímida e apresenta diversas característica com visão direta. As faixas de poeira e seu brilhante núcleo são evidentes com todas as combinações de ocular que utilizei . Com 30 X ela se apresenta na integra e se percebe um belo campo ao seu redor. Já com 120 X você começa  a perceber a delicadeza das faixas de poeira e que me fizeram entender como era rudimentar . Meu 150 mm com 240 X não me transmitiam a impressão de uma nebulosa dupla . E percebia claramente o núcleo brilhante da galaxia por entre estas faixas. Dunlop possuía um telescópio com refletor com 230 mm e com 2700 mm de DF. Com um espelho de Specullum ele deveria se comportar de forma semelhante  a  meu moderno Newton 150 mm f8. Ambos com magnitude limite ao redor de 13.  
                 Em um exercicio mais da imaginação que de astrofísica eu consigo encontrar semelhanças com M 104. A galaxia do Sombreiro. Consigo imaginar que em algumas centenas de milhões de anos que aquela faixa de poeira circulando ao redor do imenso buraco negro ao centro do conjunto acabe assentando , o núcleo ativo esteja fazendo uma sesta depois do festim  e que o confuso quadro atual acabe chegando a "um esquadro mais no esquadro" o que  nos levaria  não a  uma sósia do Sombreiro mas poderia vir a ser conhecida por astrônomos de um longínquo futuro como   Chapéu de Jangadeiro ( supondo que existam ainda jangadas e chapéus de palha neste futuro distante) .  Nesta hipótese a gente faz de conta que evolução galáctica pode seguir um caminho escrito entre o Panamá e Fortaleza...
                Depois de observar longamente Ngc 5128 pude perceber que a mesma é uma vedete muito oferecida e assim não pude deixar de realizar diversas fotos da mesma.
                O Equipamento utilizado foi uma Canon T3 montada em foco direto sobre o Newton. foram realizadas.31 exposições entre 3200 e 6400 ASA com exposições entre 25 e 20 segundos de exposição. 

processado no Rn´S e no Fitswork + PS CS5

DSS

DSS

1 X 25 seg ASA 6400


                Com as fotos me parece mais fácil perceber sua natureza galáctica e suas estruturas mais marcantes de forma bem evidente. Sempre me lembro disto quando comparo minha percepção com a dos descobridores destes objetos . Estes só possuíam sua visão e talento artístico para registrar detalhes muitas vezes sutis. E claro que se viam presos ao espectro visível da coisa. Entender a natureza dos entes cósmicos ficou bem mais fácil com o advento da radio astronomia ... E Ngc 5128 é antes de mais nada uma Radio Galaxia . Centaurus A.
                Ngc 5128 demonstra  , que como disse Ibsen, a beleza é um acordo entre o conteúdo e a forma.

                

quarta-feira, 13 de abril de 2016

M 83: A Galáxia do Catavento Austral

           


               M 83 é considerada uma das maiores atrações do céu Austral. Conhecida como a "Galáxia do Catavento do Sul" é um dos alvos mais tradicionais em quase todos os guia observacionais . Foi a primeira galaxia observada além do grupo local. Anteriormente se conheciam M 31 e M 33.  ( As Nuvens de Magalhães  também. Mas apesar de galaxias, devido a sua  quilometragem, são de outra casta.) .
                Foi uma descoberta de Lacaille e considero o feito um dos maiores da astronomia observacional. Lacaille possuía lunetas mais modesta que minha buscadora (10X50 mm) . Passei cinco anos de minha vida aprendendo a observar   DSO´s ( uma sigla e um  anglicismo para Objetos de Céu Profundo . Deep Sky Objects...).e posteriormente a realizar modestos registros fotográficos  destes. Por uma daquelas coincidências que tratam das coisas do universo mas nada tem a ver com suas leis fundamentais acabei decidindo que observar e registrar o Catalogo Lacaille seriam um bom começo. Provavelmente devido a razões cronológicas e geográficas. O Catalogo Lacaille foi o maior registro de Nebulosas até o meio do Seculo XVII ( 1752 ele sai da Cidade do Cabo...) e foi realizado pelo homem que criou o planisfério hoje adotado para o Céu Austral. Criou constelações e desmembrou a maior constelação do céu. Argos.
                Foi ele que descobriu e registrou pela primeira vez a posição de M83.  e como falei me custaram 5 anos para observar e fotografar M 83. O nome M83 vem do segundo homem a registrar a galaxia. Messier é o autor do mais clássico Catalogo de Nebulosas.
                Apesar de cantada em prosa e verso por autores mais modernos localizar , observar e perceber detalhes em M 83 com telescópios amadores é uma considerável realização.
                Diversas observações e descrições históricas comprovam isto.
                Lacaille operando milagre nos deixa a seguinte descrição.: " Nébula sem forma." . Sempre muito conciso.( 23 de fevereiro de 1752)
                Messier nos dá uma idéia mais clara do desafio que é observar M 83  visualmente e do grande feito de Lacaille com uma luneta de 7X 30 mm. :  " Fevereiro  17, 1781 -Nebulosa sem estrelas próxima a cabeça de Centaurus; surge como um fraco e homogêneo brilho,mas é difícil de se ver ao telescópio , tanto que qualquer luz a iluminar os fio dos micrometro a fazem desaparecer. Alguém só e capaz de vê-la com a máxima concentração: forma um triangulo com duas estrelas com magnitude estimada de 6a e 7a. Sua posição foi determinada a partir das estrela i , k e h da cabeça de Centaurus. M. de la Caille já havia determinado sua posição.
                A descrição de Messier comprova o feito de Lacaille. E creio que sua descrição é uma das mais expressivas para o observador amador que luta contra céus poluídos.
                Dunlop durante seu levantamento em Paramatta , Nova Galês do Sul na Austrália e em 1827 tem uma percepção bastante completa e curiosa da mesma: " 185 Centauri ( Bode) é uma muito bela nebulosa arrendondada com um um núcleo ou disco planetário  brilhante  ebem definido , com 7´´ ou 8´´ de diâmetro, cercado por um atmosfera luminosa ou "chevelure" ( cabeleira) com com 6´de diâmetro. A matéria nebulosa é levemente mais brilhante em direção as bordas do disco planetário, mas muito pouco. Eu posso ver diversos pontos minúsculos ou estrelas na cabeleira, mas não considero eles indicação de que seja resolvível, embora não tenha duvidas de ser composta de estrelas. 5 observações."
                John Herschel também a observou e a chamou de Bode 185. É evidente que Bode a inclui em seu catalogo. Porém é curioso que na copia que obtive deste ela habite a entrada de numero 15.. Bode 15...
                Herschel  pai ( William) também a observou. A considerou uma estrela nebulosa.
                Lassel percebe sua estrutura espiral e percebeu três braços . Deixou-nos um rustico desenho.
M83 é o terceiro desenho de cima para baixo e do lado esquerdo da imagem.( Lassel)

                Autores contemporâneos tem uma visão bem mais otimista de como M 83 é observada .
                O sempre otimista e talvez  ciborgue O´Meara,em seu "Deep Sky Companions ; The Messiere Objects"  no diz o seguinte: " Em meu local de observação M 83 é uma forte condensação no meu 4 polegadas ( um Televue...) com pouco aumento. , fácil em binóculos , no limite da visibilidade a olho nu."
                Perceber M83 a olho nu é uma tarefa ingrata para Steve Austin , o homem de 6 milhões de dólares. O´Meara observa de um sitio a quase 3000 metros de altitude na encosta do vulcão  onde habita o Keck telescope. Escuro pacas... Mas já mordi a língua duvidando dele ( Ngc 6124).
                M 83 é considerada uma galaxia intermediaria, algo entre uma espiral clássica "Grand Design"  e uma barrada.  Vaucouleuers a classificou com SAB c. Sua intricada um pouco distorcida  estrutura espiral pode ser atribuída a interação ou colisão causadora de marés  com a modesta e elíptica galaxia Ngc 5253.  M 83 é a feliz proprietária de seu próprio grupo galáctico no qual esta incluída Centaurus A ( Ngc 5138) .  Em exposições longas e de grandes telescópios se percebe nós azulados e avermelhados ao longo de toda a galaxia. São regiões de estrelas jovens (azuis) e avermelhadas ( nebulosas onde esta havendo criação de estrelas).  M 83 ainda foi a galaxia que carregou  o título de maior possuidora de supernovas registradas em período histórico. ¨no total sendo a mai brilhante em 1968 com magnitude 11. foi descoberta por um amador (John Bennet)  na Africa do Sul. Berço do Catalogo Lacaille.
                Phill Harrington é mais modesto. Nos diz que M 83 é um alvo viável para quase qualquer binoculo e que esta pode se tonar um alvo favorito para quem usa os dois olhos. O campo ao redor faz bela composição.  E propõe um star hooping saindo de Spica ( Alpha Virgo) ,passando por Gama Hydra e seguindo por obscuras estrelas fracas que podem vir a formar um padrão de ponta de flecha.  Nada a ver...

                É um caminho improvável para habitantes de latitudes austrais. Nosso caminho obvio e nem tão longo começa em Iota Cen e segue pelas estrelas i,k e h usadas por Messier para determinar a posição de M 83.   Segundo o Harrington localizar M 83 é possui um "finding factor " de  três estrelas. A escala vai até 5 sendo cinco trabalho mediúnico...
               
                Ha anos estabeleci  como objetivo observar e fotografar o Catalogo Lacaille. M83 foi o ultimo dos objetos que consegui observar e o penúltimo a ser fotografado.  Depois de varias tentativas frustradas e afins decidi acabar com a partida. M 83 era o ultimo passo da trilha. Atitudes foram tomadas e me despenquei com toda a parafernália  e mais a família em busca de céus escuro.  Lua nova na Serrinha.
                Depois de alguns percalços chega o momento do ataque. Achar M 83. Sem purismos mas nem por isto tão fácil ( nada é fácil em astrofotografia) uso uma cabeça equatorial com "go-to" HEQ 5 pro. Ainda que meio desequilibrada devido a um vacilo meu ela torna as coisas  bem mais fáceis que realizar um Star Hooping em busca de uma assombração . M 83 tem uma magnitude anunciada de 7.3 ( ha registros mais antigos e mais ao norte que falam em 10) mas apresenta um baixo valor de brilho de superfície. É como se o brilho de uma estrela de 7 mag se espalha-se por uma área de  maior que a lua cheia. ( 1102 min).
                Com a vitima supostamente dentro do campo de visão da buscadora ( a cabeça esta operando em modo de segurança...) eu tento escanear a região com minha 25 mm. Sei que o método não é eficiente mas as vezes a Dona Fortuna colabora e o alvo aparece em meio ao passeio.   Não desta vez. Assim acho que acreditar que o go-to tem precisão na casa de 5o  é uma boa ideia. Me lembro que Lacaille localizou M 83 com muito menos poder de fogo que minha buscadora. Utilizando todos os truques que conheço ( respirar fundo, piscar, , bater na buscadora e etc...) acabo percebendo quase nada. Algo entre uma estrela muito fraca e nada...
                Centralizo "a quase nada" na buscadora.
                Com concentração "shaolin" percebo apenas um estrela levemente cabeluda.A foto abaixo é uma única exposição de 20 seg. com ASA 3200.  É por isto que você procura inicialmente.

                Vou insistindo e com visão periférica percebo uma condensação muito fraca levemente oval. Conforme vou insistindo ( sempre com visão periférica ) a coisa vai se tornando mais elaborada. Com alguma boa vontade , tempo e muita visão periférica percebo com o rabo de olho quase isto...
                         

  No fim de tudo  acredito ter percebido a estrutura barrada de M 83. E uma suspeita do terceiro braço. A foto abaixo revela bem ele mas as custas de muito ruído.
                          

                        Para realizar as fotos acima tive que primeiro fotografar a moça.
                 Começa o jogo.  Com tudo preparado instalo a câmera e busco garantir que algo seja exposto de forma aceitável . Assim com  ASA bem alta (6400) e apostando em  exposições  mais curtas para garantir que o acompanhamento seja no minimo razoável dou a saída.  
                Vejo a primeira foto. Percebo que algo foi registrado no entorno do núcleo que agora é bem evidente.  Faço mais algumas dezenas de fotos. Depois disto realizo a mesma operação com a ASA um pouco mais baixa. 3200. Gostaria de trabalhar em 1600. Mas o tempo urge e não sei quando vou poder voltar a céus tão bons. Ainda quero fichar mais elementos na noite...


                M 83 é um alvo visual difícil. Requer varias estratégias e batalhas. Suas fotos não foram diferentes.

                Com dezenas de fotos entre 3200 ASA e 6400 ASA eu imagino utilizar o Deep Sky Stacker para empilhar uns e outros separadamente  e ver o melhor resultado. Mas ambos os casos acabam em um de meus desastres binários e não tem nenhum valor. 

desastre binário



                Começo a me preocupar . Mas ha mais coisas e  aterra e o ar que os aviões de carreira , como dizia o Barão de Itararé.  Me restam o fitswork e o rustico Rot n´Stack.

                "Verás que um filho teu não foge a luta  e o conjunto fez as fotos que o DSS renegou". Com mais auxilio do Photo Shop achei até bom os resultados.  As imagens abaixo revelam detalhes  muito além do que percebi em todas as combinações oculares tentadas.
favorita...
                As outra fotos são resultados de diferentes processamentos.







                           








Pop Art

                Pretendo um dia fazer varias horas de exposição em M 83. É evidentemente uma  bela e tímida musa...
               

                 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Astrofotografia, Lacaille e a Serrinha do Alambari

             
             Começam os planos para  completar a minha peregrinação cósmica autoimposta.  Ha anos venho buscando fotografar todos os objetos do Catálogo Lacaille para poder me dedicar a organização de meu livro contando a história da "invenção do céu austral" , de como um abade com equipamentos simplicíssimos conseguiu realizar o maior catalogo de céu profundo escrito até o meio do século XVIII e apresentar o "caminho das pedras" até as maiores joias escondidas no fundo  deste  céu abaixo do equador.
                A primeira coisa foi organizar todas as fotos que já realizara e casar estas com a cópia do Catálogo que possuo.  Para minha surpresa faltavam 3 elementos ( eu achava serem somente 2...) . E  sabendo os  butins que  faltavam organizar uma expedição até um local mais escuro que a" Stonehenge dos Pobres"" que vem sendo muito prejudicada pela já eterna obra de um metro que não vai ficar pronto dentro do prazo . As olimpíadas no Rio vão acontecer em uma cidade inacabada e repleta de canteiros de obras que receio acabem ficando assim por muito tempo. No fim a cidade vai estar falida , a olimpíada vai ter acabado e será novamente confirmado que políticos no Brasil são péssimos administradores e coisas ainda muito piores...
                A Armação dos Búzios seria a escolha mais óbvia e tradicional. Afinal o Catalogo foi inteiro capturado ou da Janela da Stonehenge dos Pobres ou de Geribá. Mas a casa lotada de gente e eu precisando aproveitar esta lua nova antes de recomeçar a minha eterna luta pelo vil metal   achei que seria uma boa ideia levar a família inteira para a Serrinha do Alambari. Um belo refugio entre Penedo e Visconde de Mauá que me garantiria céus mais escuros que a Armação. Achei uma simpática e barata Pousada localizada  a cerca de 1000 metros de altitude que me parecia perfeita para a missão. E assim lá foi toda  família. Eu, Newton, Mme. Herschel , a cara metade e as crianças . A já nem tão mais nenenzita " Nenenzita" ( ela odeia o carinhoso apelido. 12 anos são uma idade dura). E  o Fofusko com seus fofos 2 anos... 
                Antes de partir fiz algo que todos diziam ser um erro e uma temeridade. Limpei o sensor de minha câmera. E para isto usei apenas uma folha de Rosco Paper. Um papel utilizado para limpar lentes e que já utilizei ( também contrariando todos os  "especialistas")    para limpar os espelhos do Newton ( meu refletor 150 mm f8) ... Funcionou que foi uma maravilha.
                E Assim possuía 3 alvos pré determinados e que não retornariam ao porto sem combaterem o Nuncius Australis com todos os panos levantados e com a "Jolly Roger" tremulando.   
                Antes de partir chequei todo o equipamento e espanei a poeira. O check list foi completo ( pelo menos achei que seria...)  e levei as seguintes oculares : 
ü    A nova 40 mm ( ganhará em breve um post só dela...)
ü    A 25 mm wide field Skywatcher
ü    A minha favorita 17 mm
ü    A nem tão boa e velha 10 mm
ü    E uma 5 mm suspeita mas que poderá ser util com alguns planetas...
ü    Uma Barlow 2X ( Skywatcher "de fabrica")
ü    Duas velhas Kellner que são uma espécie de amuletos dos tempos do "Galileo" ( meu bom e velho refrator 70 mm f 13)
                Comprei ainda uma imensa prolonga com 10 metros de fio paralelo 2,5 mm para garantir que conseguira operar de um local bem escuro no terreno da simpática e humilde pousada.
                Apesar de durante o inicio do ano a Fortuna me ter sorrido a vida de gaffer freelancer no Brasil é sempre cheia de altos e baixos e ainda estou pagando tanto a Mme. Herschel ( uma cabeça equatorial HEQ 5 Pro) e meu novo carro que possui uma mala onde  posso transportar tudo que a cara metade exige e mais meu brinquedos...  Em momento tão delicado da vida politica e econômica na nação temo dizer que o dolar alto me ajuda um pouco( assim os gringos vem filmar por aqui e são meu nicho favorito de trabalho.) .  Mas em compensação a cara metade perdeu o emprego junto com milhares de brasileiros. São tempos de incerteza e poder observar o céu permite-me manter o Rivotril em doses minimas...
                Chegando ao meu destino me organizo para começar a diversão. Esqueci os contrapesos de Mme. Herschel. Entre a ira e o panico me lembro que a necessidade é a mãe da invenção e fabrico um contrapeso com uma lata de leite em pó e pequenos seixos que abundam na beira do Rio Pirapitinga. A Primeira noite não dá muito certo apesar de um deslumbrante céu. Depois de muito apanhar descubro que preciso de mais peso na montagem e que um kilo de chumbo pesa mais que um kilo de seixos...

                Com o auxilio de uma garrafa pet e de mais pedras acabo conseguindo que Mme. Herschel ache um ponto de quase equilíbrio e consigo fazer algumas fotos de Acrux e da Caixinha de Jóias . 


Começo a me preocupar com o " Projeto Lacaille".  Fico horas lutando com M 83 e não consigo  à localizar . Refaço o alinhamento do "go-to" da cabeça varias vezes mas ela não chega nem perto de algo chamado precisão.  Sabia que havia realizado o alinhamento polar com displicência , utilizando apenas a bussola do I Phone como instrumento de precisão. Com um contrapeso desequilibrado era abusar demais da boa vontade de Mme. Herschel. Não estava nem em Buzios e nem  na Stonehenge do Pobres onde sei " de ouvido" onde é o sul. Era um local novo e eu não deveria ser tão relaxado. Dou uma olhada em Jupiter e mais alguma bobagens . Como estava exausto devido a um mês de muito trabalho e de uma noitada animada na véspera acho melhor me retirar para combater com mais vontade na próxima noite.
Poço das Esmeraldas

                No dia seguinte fiz um belo passeio com a família e visitamos varias cachoeiras que residem dentro do terreno do Camping Club do Brasil. Reza a lenda que o Camping da Serrinha é o melhor do Brasil.  Depois de um "almojantar" na cantina do camping fiquei com medo de imaginar como seriam os outros campings do país...
                De volta  a minha bela , aconchegante e escura pousada me preparo para a noitada decisiva no projeto. Melhoro ao máximo meu contrapeso "paraguaio" e realizo um alinhamento polar bem preciso com o auxilio de Avior. Não gosto de realizar o "método do drift" e assim utilizo uma técnica que embora mais preguiçosa é bastante eficiente.
                Agora é a hora da verdade. Com Mme. Herschel alinhada com o polo parto para o alinhamento do "go-to" da montagem.  Utilizo a rotina de " Two Star Alignment" do menu do Synscan.  Acrux e Alpha Centauro são as estrelas guias...  
                Com o contrapeso tosco me dou por feliz quando todos os alvos que indico acabam  dentro do campo da Buscadora.  As vezes dentro da ocular 25 mm.
                Comprei recentemente uma ocular 40 mm. Ela finalmente justificou sua presença em meu kit.  Seu grande campo me ajudou muito na localização de alvos. O "go-to" ficou um pouco errático devido ao tosco contrapeso utilizado. Mme. Herschel ganhou ainda mais o meu respeito e se mostrou-se uma companheira valente e sem frescuras...
                Ngc 2546 é o Lacaille "mais fácil" que preciso fotografar. Um grande aglomerado aberto e que é rapidamente localizado na buscadora. Faço uma poucas fotos e reparo que o além de um alinhamento polar menos que perfeito e com um erro periódico bem aumentado devido ao   set up improvisado o meu querido "Newton" ( um telescópio refletor de 150 mm f8)  esta bem descolimado.  Penso a respeito e como astrofotografia aqui no Nuncius esta mais para "arma de destruição em massa" que para sétima arte deixo tudo como esta e faço mais algumas fotos.  Com apenas 10 exposições de 20 segundos em 6400 asa o resultado final não é lá estas coisas. desconfio que o Deep Sky Stacker ( um sofware utilizado para "empilhar" fotos ) não gosta muito de trabalhar com ASAS altas. O ruido da imagem o confunde e as vezes leva a " desastres binários". ( resultados de empilhamento desastrosos e sem nenhuma qualidade...) . Não chegou a tanto mas o resultado ficou ( na melhor das hipóteses) a la " anos 70". Pelo menos é um alvo fácil , que não demanda o céu escuro que possuo e  posso refazer as fotos sem maiores esforços...
No Deep Sky Stacker

No Rn´S +PS

                Agora a hora da verdade de novo. M 83 é , disparado, o  alvo mais difícil de  ser avistado no Catalogo Lacaille. Mas com paciência e perserverança acabou fotografada.  Foram utilizados todos os truques que conheço. Respirar fundo , visão periférica , tapinhas no telescópio e reza braba. Não sei qual deles funcionou mas acabei percebendo a peça na buscadora... E assim percebi que a missão seria cumprida. Senti um tremendo alivio e abri uma garrafa de tinto.
M 83- 30X 25 seg ASA 3200
                Com muitas imagens realizadas e com imagens feitas tanto em 6400 ASA e 3200 ASA o pós processamento das imagens de M 83 foi trabalhoso e o DSS não quis ser legal comigo. Mas incrivelmente os resultados obtidos com uma mistura de Fitswork , RnS e Photoshop foram mais que satisfatórios. Mas admito que os primeiro resultados obtidos com o DSS me deixaram preocupado. A coisa entre eu e M 83 estava se tornando pessoal...
                Falatava apenas fotografar Ngc 4833. Um discreto globular em Musca.  Com M 83 na guaiaca parece-me que o "go-to" resolveu me dar uma moleza e ele aparece centralizado na ocular 25 mm.  Faço diversas exposições do ultimo Lacaille que me faltava fotografar. Este o DSS não cria problemas...
Ngc 4833 - 12X 25 seg -  2X Drizzle

                Entre o inicio da empreitada e o final se passaram cinco anos , três binóculos , dois telescópios , duas câmeras fotográficas  e três montagens equatoriais.
                Agora era só alegria e coloco o Synscan da montagem para me guiar. Ele oferece um tour pela objetos mais interessantes da noite e assim não preciso sequer olhar para o Sky Atlas ou para o Stellarium. 
                Com Mme. Herschel finalmente se entendendo bem com a gambiarra eu começo a devanear  de como ela deveria ser esperta. Ou pelo menos de como as engrenagens nela estavam bem azeitadas e resistindo bem ao tranco. E com a 40 mm calçada o Tour me leva direto até Ngc 5138. Centauros A . Uma galáxia muito fotogênica e que é bem mais fácil de ser observada que M 83.  Novamente o DSS não se mostrou a melhor solução  para o material capturado.  Embora tenha se saído melhor que com M83.  É o único objeto fotografado nesta noite que não foi registrado pelo Abbe. Não sei como visto que reside em uma área explorada por este e certamente ao alcance de quem " descobriu" M 83...
DSS

Rn´S +Fitswork - 30X 25 seg 6400 asa.

                Depois a 40 mm faz a festa em seu terreno favorito . Grandes aglomerados abertos. E revisito e  faço alguns rápidos registros de M6 , M 7 , Eta Carina  e M 4. Todos membros do Catalogo Lacaille
M 6
                Gostaria de frisar que escolhi a posição do telescópio visando ver o que chamo de "meu céu". Este é olhando para o horizonte sul e engloba o que considero a mais bela região da Via Láctea. Se estende de Sagitário e Escorpião , cruza o conjunto entre Centauros e Crux ( e as constelações da Família Lacaille ) se estendendo pela finada constelação de Argos e abraça o Cão Maior. Depois a Via Láctea já adentra  uma area mais equatorial que embora linda não é mais o que podemos chamar do Céu do Sul.    E já não  mais visível da Stonehenge dos Pobres...
                Agora já vai tarde e percebo quão maravilhoso esta o céu.  Entre 3 e 4 na Escala Bortle.  Bortle 3 implica em que globulares brilhantes como Omega Centauro , M 22 e cia Ltda sejam facilmente visíveis a olho nu. Eles estão lá firmes e fortes . Não só isto. Ngc 2516 ( percebo estrelas individuais neste...) , Omicron Velorum e diversos abertos ao longo da via láctea são óbvios mesmo com visão direta. Mesmo alvos mais difíceis como Ngc 6124 ( que sempre achei impossível ver a olho nu e me fez achar que O´Meara era um cara exagerado...) eram percebidos sem esforço sobre humano.  Estrelas de 7a magnitude são percebidas.
                Guardo todo o material agradecendo a Mme. Herschel pelo esforço e me deito em uma canga com a caneca de vinho ao meu lado e fico namorando este céu até 4 da manhã. Fico tentando identificar a estrela mais tênue que consiga perceber . Mas não consigo definir qual é esta. Sempre parece ser possível ver algo mais fraco.  Se o céu na Serrinha fosse feito de alguma coisa  seria de um cristal bem fino.  Assim como o céu que Lacaille encontrou na Cidade do Cabo nos idos de 1751...


                 Agora de volta  a  astrofotografia. Não poderia deixar de falar do registro obtido da Nebulosa de Carina. Como falei o DSS parece não ter gostado das capturas feitas na Serrinha. Pelo menos da maioria destas. Me é então muito surpreendente que as 13 fotos que fiz da Nebulosa acabem sendo todas aceitas pelo mesmo e apresentando uma qualidade final muito acima do que poderia esperar. Definitivamente existem coisas que não se explicam no mundo digital... E no mundo mêcanico também. Por alguma razão o acompanhamento destas treze fotos foi melhor que os outros. Gostei muito do resultado final. Já realizei fotos com muito mais tempo de exposição somada da nebulosa mas acho este o melhor resultado que já tive na região. Creio que o céu escuro e a posição quase meridiana no momento da captura tenham ajudado...  
M 7

                Ainda no campo do pós processamento percebi que em muitas das capturas os resultados do DSS apresentaram um dos canais enlouquecido. Geralmente o azul . No histograma o azul apresentou formas muito loucas e dominou a paisagem. Creio ter algo a ver com dark frames mas não posso garantir. Ajustando muito no próprio DSS conseguia atenuar a coloração mas permanecendo muito ruido. Nunca tinha tido este problema.  As fotos de M 4 abaixo representam bem o problema...

DSS "dando defeito". A foto acima foi processada no próprio DSS e no PS. 

Resultado do DSS antes de algo ser feito em prol da causa... 

                Felizmente existem opções menos temperamentais que o DSS. Em especial o Fitswork e o bom e velho Rot n´Stack. E assim acabei conseguindo resolver todos os obstáculos que se apresentaram.
                Pretendia ainda ter mais uma noite para explorar o Aglomerado de  Coma-Virgem. Mas o tempo virou e  esta região não tão minha conhecida ( não é o " meu céu"...) ficou para a próxima.
                Viva os céus escuros!!!